31 de dezembro de 2014
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Uma bebê prematura – O Ano do Imponderável – Por Fabiana Fonseca

O ser humano precisa aprender a lidar com o imponderável. E o imponderável, neste 2014, bateu às minhas portas com tudo. E eu tive que aprender, a duras penas, a me conformar. E a replanejar. E pude perceber que, lidar com a nova realidade. A cuidar de uma bebê prematura.

Tive um filho em 2012, quase que “como manda o figurino”. Tirando o fato de que eu demorei 8 meses para engravidar, depois de ser duas vezes ser surpreendida com um falso positivo de uma tal “gravidez bioquímica” (que é acontece quando houve a fecundação, mas não houve a fixação do embrião no útero), minha gravidez do primeiro filho foi quase que perfeita!

Nascido às 38 semanas e 3 dias, sem nenhuma intercorrência, Arthur é um menino, lindo, forte e saudável. Decidimos que teríamos outro filho. Resolvemos então interromper os métodos contraceptivos em umas férias que tiramos em março/abril de 2014, pensando:

“vamos ter um filho no meio de 2015. Então, iniciamos agora e, daqui há uns 08 meses, estaremos grávidos de novo!”

Ah, os planos! Tão falíveis!

O Ano do Imponderável

Por Fabiana Fonseca

Com alguns dias de atraso menstrual logo depois das férias, tratei logo de fazer um exame de gravidez, exame mesmo, de laboratório, pra não ter erro… Negativo! Como previsto! Mas aí… Duas semanas, enjôos, azia e sono depois… Repito e exame e… Batata! Grávida.

Aí pensei: não planejei isso para agora, mas ok, esse pequenininho (a) será muito bem vindo! Outros enjoos, azia, sono, e translucência nucal.

É uma menina! Como queria o papai! Mas muito pequenina… E eu com uma incisura na artéria uterina. Isso já havia acontecido na gestação anterior.

“Tome um AAS infantil por dia e isso irá se resolver”.

Tomei. Resultado: ALERGIA!

Algumas picadas depois, muitos exames e um diagnóstico:

“Você tem uma tendência genética à trombofilia e precisa tomar uma injeção diária de anticoagulante”.

E olha que eu já tinha ouvido falar disso. E, na ocasião, achei que a mãe que havia se submetido a isso merecia uma cadeira especial no céu. Poxa… Que sofrimento!

Que nada! Uma picadinha diária (ou duas, no meu caso) não é nada pra quem quer uma gravidez tranquila e um filho saudável. Pensei: essa é a parte mais difícil da gravidez, mas eu vou passar por ela fácil. Ledo engano.

Às 30 semanas de gravidez, e já com a sensação de dever cumprido, me despedi do meu marido numa quarta-feira de manhã para que ele pudesse fazer uma sequência de curtas viagens de trabalho.

As primeiras depois de dois anos, desde que meu primeiro filho nasceu. Pensamos que seria melhor fazê-las logo, às 30 semanas, para que depois meu marido pudesse estar ao meu lado nos dias mais próximos ao parto.

A quarta-feira se seguiu muito bem, e também a quinta-feira. Neste dia, fiz meu filho dormir na minha cama e o carreguei nos braços até a cama dele. Acabei de ver um programa na TV e fui dormir por volta da meia noite.

Uma bebê prematura

Lembro-me ter olhado no relógio quando acordei de madrugada naquela noite, com fortes dores na barriga e recordando-me de já haver sentido uma dor parecida com aquela antes, no dia do parto do Arthur. Eram 01:35 horas. Fui ao banheiro com meu celular, querendo acreditar que aquilo eram apenas cólicas, e digitei no Google: “contrações de treinamento”. Só podia ser isso! Que trabalho de parto que nada… Isso não aconteceria comigo.

Retornei à minha cama e senti um líquido na calcinha. Hoje vejo que eu não queria acreditar que aquilo estava acontecendo. Levantei-me correndo e fui ao banheiro novamente, ainda com as luzes apagadas. Quando me sentei, vi escorrendo uma enorme quantidade de líquido. Aí sim, eu realizei que algo estava errado.

Percebi que minha bolsa havia se rompido

Tentei pensar em o que fazer naquela situação, já que estava sozinha em casa com meu filho de dois anos, com o marido a muitos quilômetros de distância.

Resolvi acender as luzes. Percebi, então, que o buraco era mais embaixo. Bem mais embaixo. Meu banheiro, com azulejos e louças brancas, havia se transformado numa poça vermelha de sangue. Minha primeira reação foi conferir se meu bebê não estava no vaso sanitário. Constatei que não. Tentando organizar as ideias, liguei para o meu obstetra e relatei ocorrido. Após o relato, fiz a única pergunta que me passava pela cabeça:

“Dr., eu perdi meu bebê?”

Ele me respondeu que não, que àquela altura da gestação não se perde um bebê assim, e recomendou que eu fosse imediatamente ao hospital. Ainda me lembro de ter feito uma pergunta estúpida sobre levar meu filho comigo, enquanto eu tentava resolver o que fazer.

Liguei para a minha amiga-irmã, que se morava no terceiro andar do meu prédio. Ela também “padece no paraíso” com um casal de gêmeos e, quando liguei às 02:15 da manhã, me atendeu prontamente e me disse que estava subindo imediatamente para o meu apartamento.

Eu deixei a porta aberta e entrei no banho, tentando ficar livre de pelo menos parte daquele sangue. Quando saí, minha amiga já estava no quarto, me perguntando como eu queria que ela ajudasse. Pedi que ficasse em casa com meu filho, que eu iria imediatamente ao hospital.

A vida da minha filha estava em risco.

Entrei no carro e me lembro de, no caminho, ainda ter ligado para o meu marido para avisar que ele precisava dar um jeito de vir embora. Alguma coisa tinha dado errado, eu ainda não sabia o que era, mas ele precisava vir.

Cheguei ao hospital às 02:35 horas da manhã e mais 20 minutos se seguiram até que minha filha nascesse. Nesse intervalo me lembro de ter ouvido um milhão de perguntas a respeito do meu acompanhante e de ter explicado, outras milhões de vezes, que meu marido estava viajando, que eu estava sozinha em casa com meu filho e que precisei ir só para o hospital.

Minha bebê havia entrado em sofrimento e estava com baixa frequência cardíaca. Observei a movimentação na sala de cirurgia e ainda pedi que ligassem para meu obstetra, o que negaram. “Não dá tempo”, me avisaram. E o pesadelo parecia que não tinha fim. Vi o anestesista me enfiar aquela agulha fria, senti a movimentação do corte na minha barriga e, então, fui avisada que minha filha tinha nascido. Foi aí que ouvi a pediatra:

“Façam a massagem cardíaca. Ela está parada. Reagiu. Vamos entubar”.

Arquivo pessoal: Fabiana Fonseca
Arquivo pessoal: Fabiana Fonseca

Agora eu estava aos prantos. Foi nesse momento que consegui chorar. Não tinha mais nada a ser feito. Só esperar. E ter fé. A pediatra, então, foi até mim. Meu marido neste momento estava comigo ao telefone e ouviu a explicação:

“Ela nasceu com parada cardíaca. Reagiu bem às manobras, mas é uma prematurinha muito pequena e precisou ser entubada. Precisamos ver como ela vai reagir, porque a situação dela é pior que a dos outros prematuros, em razão das circunstâncias que ela nasceu.”

A partir de então, todos os que me chamavam de louca por ter ido sozinha para o hospital, passaram a me chamar de corajosa. E o médico sentenciou:

Mais cinco minutos e ela não teria sobrevivido.

Não sou corajosa. Sou mãe. 

Ah… Esqueci de falar que o que tive foi um descolamento prematuro de placenta.

Eu não tinha planejado ter um parto com 30 semanas.

Não tinha planejado estar sozinha em casa com meu filho quando minha bolsa estourasse.

Não tinha planejado ter um descolamento prematuro de placenta.

Não tinha planejado estar sozinha naquela sala de cirurgia, tampouco ouvir todas aquelas coisas da pediatra que fez o primeiro atendimento à minha filha.

Não tinha planejado ter uma bebê prematura.

Tinha planejado um parto com, pelo menos, 38 semanas, perto do Natal.

Eu ia tirar fotos do meu barrigão com 32 semanas e postá-las nas redes sociais!

E, depois, ia ouvir o chorinho do meu bebê saindo da minha barriga, sendo acariciada pelo meu marido, com uma câmera a tiracolo.

Eu ia passar dois dias no hospital e ir embora com ela pra casa…

Ah, o imponderável! Como ele é cruel!

Minha pequena Alice nasceu com 1035 gramas e passou 51 dias na UTIP do Mater Dei e quase morreu no terceiro dia de vida.

Teve hemorragia pulmonar, gastro-intestinal e uma crise convulsiva que fez os médicos suspeitarem que ela teria uma hemorragia cerebral muito forte e que, se sobrevivesse, provavelmente teria sequelas em razão dessa hemorragia intracraniana.

Precisou fazer transfusão de sangue e me fez rezar e chorar copiosamente por uma semana.

Nenhum médico (isso eu só fui saber mais tarde), acreditava que ela daria conta de sair daquela situação. Todos (eu disse TODOS), me disseram depois que ela era um milagre.

Meu pequeno milagre

Uma delas, com anos de experiência em UTI neonatal, chegou a me dizer que nunca viu um neném sangrar tanto. Mas ela reagiu. Fez o exame da cabecinha e foi constatada uma hemorragia cerebral grau II que, na situação dela, era uma notícia maravilhosa. O corpo seria capaz de reabsorver sem sequelas.

Também foi constatado que uma válvula no coração permanecia aberta, enviando sangue em excesso para o pulmão. Esse problema é comum nos prematuros e, em razão deles, alguns precisam passar por cirurgias ainda nos primeiros dias de vida.

Três dias de medicamento e a válvula se fechou espontaneamente. No 13º dia de vida, ela mesmo se extubou e deu um susto nos médicos. Como o padrão respiratório era bom, ela permaneceu extubada e foi ligada a um aparelho mais brando de ventilação mecânica chamado CPPAP. No 23º dia, abandonou o CPPAP e passou a contar apenas com uma concentração maior de oxigênio dentro da incubadora.

Arquivo pessoal: Fabiana Fonseca
Arquivo pessoal: Fabiana Fonseca

Com 27 dias de vida foi “promovida” para a unidade intermediária, o que foi, para nós, uma imensa alegria. Até ali eu passava meus dias no hospital, mas ficava com ela no máximo duas horas por dia.

Visitas

As visitas eram curtas, sempre atrasavam, e os boletins médicos demoravam uma eternidade. Era uma penúria. Na unidade intermediária ela ganhou um bercinho, podia usar roupas e eu, finalmente, ganhei de volta meu papel de mãe.

Podia ficar com ela durante todo o dia, trocava fraldas, pegava no colo e acompanhava cada avanço. Agora ela tinha duas metas: atingir o peso de 1850 gramas e aprender a sugar tudo o que precisava na mamadeira.

Até ali ela recebia leite materno por uma sonda nasogástrica. E eu retirava o leite religiosamente, no mínimo cinco vezes por dia. Era a única coisa que eu podia fazer por ela. E eu ia tentar fazer. E ia conseguir.

Pra quem escapou da morte, ganhar 250 gramas e aprender a sugar não era uma meta, era um prazer! Com uma semana minha pequena guerreira mamava no meu seio. E sugava lindamente! Como eu sou orgulhosa dela.

Casa

Então, fomos pra casa. E eu estou aqui, reaprendendo a ser mãe. Ser mãe de uma bebê prematura, um neném tão frágil (e ao mesmo tempo tão forte), é um desafio novo pra mim.

Eu, que amo ver meus filhos no colo dos amigos e parentes, não posso deixa-la ser tocada por ninguém, por recomendação médica. E eu a defendo como posso, de todos os males.

Eu também não planejava nada daquilo que aconteceu a ela. Mas hoje ela esta aqui, nos meus braços, me fazendo a mãe mais orgulhosa e mais feliz desse mundo. Ele também planejou me dar uma lição de vida. 51 dias no hospital fazem qualquer um rever os conceitos.

O contato com a dor do outro, te faz viver a compaixão na carne. Eu vim pra casa com minha pequena, mas deixei meu coração com todas as mães e pais que ainda estão naquele hospital lutando pela vida de seus filhos. E os planos… Ah, os planos. Esses, eu faço e refaço quantas vezes a vida exigir.

No Natal pude, então, fazer finalmente uma foto em família: meu marido, eu, Arthur e a pequena Alice. Esse foi o único plano que, graças a Deus, não precisou ser refeito. E como eu sou grata a Deus por isso!

E hoje…

Alice, com 10 meses e 27 dias, está uma lindeza e muito esperta! É uma criança pequetita, em razão de sua condição de prematura, e ainda pesa menos de 6 kg.

Ainda mama no peito, graças à minha força de vontade, porque se dependesse dela ela teria largado aos 5 meses! Nessa época ela começou a não ganhar peso, recusar o seio materno e qualquer outro alimento que eu tentasse dar! Tentei de tudo, fruta, mingau, papinha pronta, suco, todos os tipos de leite de fórmula, tudo! E tudo que se punha na boca da pequena, ela cuspia de volta. No auge do meu desespero, após 3 meses sem engordar um grama sequer e com peso de recém-nascido aos 8 meses , procurei uma pessoa cuja filha também era prematura e, em razão de algumas dificuldades de sua condição, era acompanhada por diversos profissionais.

Carla Menezes

Ela, então, me deu a luz do fim do túnel. Indicou uma fonoaudióloga super competente, que eu acho que também é padecente, a Carla Menezes. A Carla, então, me disse que a Alice, por causa de tudo que passou no hospital, tinha uma dificuldade sensorial.

Nas palavras dela, os canaizinhos sensoriais da Alice estavam fechados, já que tudo que ela tinha passado até ali, a entubação, as várias manipulações para colocar a sonda, tudo, não tinha sido agradável. Ela então me orientou sobre como estimula-lá e, milagrosamente, Alice passou a comer normalmente com 24 horas de estímulos.

A mente e o corpo humano tem tantos mistérios que é difícil imaginar que um acontecimento ocorrido com um bebê tão novinho possa ter tantos reflexos.

Etapa vencida

Alice agora come loucamente! E está falante (na língua dela) e tem um sorriso tão penetrante que vê-la sorrir chega a me encharcar a alma, de tanta felicidade! Voltou a mamar na mamãe com muito gosto e depois de tantas dificuldades, que incluíram amamentar uma bombinha por 2 meses, vencer a resistência da pequena que queria largar a amamentação, dentre outras coisas, meu leite ainda está aqui, firme e forte.

Então, se você, mamãe, gosta de amamentar e tem dúvidas se vale a pena insistir, meu recado é: não desista! Se não fosse meu leite quando a Alice recusou todos os alimentos, nem sei o que teria sido! Sei que ainda temos muitas etapas a vencer (que mãe não tem?), mas sabemos do poder de Deus e, depois de tudo, temos certeza plena de que ele nunca nos abandona!

Arquivo pessoal: Fabiana Fonseca
Arquivo pessoal: Fabiana Fonseca

Fabiana Fonseca

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