01 de junho de 2015
Comentário( 1 )

Ser mãe é padecer no paraíso – Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo

Ser mãe é padecer no paraíso. Devido a uma trombose na perna esquerda aos 19 anos, descobri que tenho uma Síndrome chamada SAF (Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo), uma causa importante para a ocorrência de trombofilia e de abortos repetidos, principalmente pré-eclampsia.

Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo

A Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo, é uma doença crônica em que o organismo passa a produzir anticorpos que afetam a coagulação sanguínea levando à formação de coágulos que acabam obstruindo a passagem de sangue nas veias e artérias, a chamada trombose.

Ser mãe é padecer no paraíso

Amanda de Oliveira Andrade

Na época, o médico disse que, ao engravidar, a gravidez poderia ser de alto risco ou eu poderia via a ter abortos repetidos. Não tive medo, eu era jovem e não pensava em ter filhos.

Mais tarde, com 29 anos, tive a minha 1° gestação que não foi planejada, mas que levei com amor. Corri para o meu hematologista que imediatamente já recomendou as injeções de anti-coagulantes, todos os dias, durante os nove meses de gestação, dessa forma, estaria protegendo o meu bebê.

Injeções de anticoagulantes

Eu e meu marido fizemos o que ele pediu. Não conseguimos pelos SUS a tal injeção, tivemos que comprar, usei a Clexane e a Versa (mais em conta). Porém com quase oito semanas, comecei a ter um sangramento. Fiz um ultrassom e descobri que meu bebê não tinha batimentos cardíacos, começou ali um aborto espontâneo que durou o processo de uma semana até que tudo chegasse ao fim.

Aquele foi um dos piores dias da minha vida. Chorei muito, sensações que se misturavam, tristeza, impotência, frustração,e outras mais…

Opiniões diferentes se faziam, um médico dizia que não poderia ter filhos e outros diziam que sim. Poderia tentar quantas vezes que quisesse. Tive muito medo que resolvemos não pensar nisso tão cedo.

Grávida novamente

Dois meses após os acontecimentos, descobri que estava grávida novamente! As sensações voltaram, alegria e medo, muito medo!

Corremos para o meu hematologista novamente e, pela segunda vez, ele recomendou o tratamento, injeções de anticoagulante e acompanhamento severo. Resolvi mudar de ginecologista e obstetra, procurei um especialista em gravidez de alto risco (isso faz toda a diferença). Ele aceitou o meu caso e começamos a fazer um acompanhamento.

Meu marido (um anjo) aplicava, com toda paciência do mundo, as injeções na minha barriga,  todos os dias, durante os nove meses de gestação.

Fizemos ultrassom todos os meses para acompanhar o desenvolvimento do bebê. A Luiza estava cheia de vida e saúde, mexendo muito! Ao escutar seu coração pela primeira vez, choramos de tanta felicidade. Correu tudo bem. Gravidez super tranquila! Tivemos tempo para tudo, quartinho arrumado, tudo do jeito que imaginávamos.

Artérias umbilicais entupidas

Com 39 semanas, fiz um ultrassom e descobrimos que as artérias umbilicais estavam entupidas. No mesmo dia tinha uma consulta com o GO, corremos para o consultório. Durante os exames o médico disse que eu estava com pré-eclampsia. Decidiu me internar e fazer o parto. Tive muito medo, mas estava me sentindo segura com ele.

As 21:30 horas do mesmo dia a Luiza nasceu, linda e saudável, com 3,100 quilos. Ela estava perfeita. E eu, muito feliz. Começava ali a nossa nova vida!

Fui para casa depois de quatro dias em observação. Mas alguma coisa estava errada. Desse dia em diante, sentia muita fraqueza, mal estar, dor no peito que achei que a causa fosse a amamentação, estava com muita dificuldade em amamentar. Mas não era isso!

Dores

Oito dias pós parto, de madrugada, senti uma dor muito forte no rim esquerdo. Levantei-me, chamei meu marido e disse que teríamos que ir ao hospital. Ligamos para uma prima e pedimos que ficasse com a Luiza enquanto íamos ao hospital.

Fiquei em observação no período da madrugada até o dia seguinte. Nem morfina parava aquela dor. O médico de plantão sugeriu um ultrassom.

Diagnóstico: restos na placenta. Furioso meu marido ligou para o meu GO que me internou de imediato e fez uma curetagem. Após o procedimento, ele nos informou que não era isso, pois meu útero estava limpo. Sugeriu outro médico (e a dor quase me matando).

Um Pneumologista foi me ver e pediu um raio-X que detectou uma pneumonia. Segui internada, tomando os medicamentos e piorando a cada dia. A Luiza tinha poucos dias e não amamentava mais, meu leite secou e eu não poderia vê-la. Ficou sob cuidados da família.

Pneumonia, embolia pulmonar e trombose

Num domingo fiquei muito debilitada e meu marido se exaltou no corredor do hospital por não haver médicos ali, apareceu um Cardiologista que pediu uma tomografia que mostrou que, além de pneumonia, eu também estava com embolia pulmonar e trombose.

Comecei novo tratamento no hospital com antibióticos, micro com Berotec (quase me matou) e anticoagulantes (dose máxima).

Minha filha seguia na casa da minha prima por 16 dias e meu marido se desdobrava. Um dia, por questionamentos do meu marido ao médico ele me deu alta.

Fui para casa, mas não conseguia nem carregar minha própria filha, ela ia durante o dia me visitar na sua própria casa. Não usamos o berço e nada que tinha no seu quarto tão preparado para a sua chegada!

Depois de dois dias em casa, cheguei ao meu limite e piorei, não conseguia dormir, nem comer, ficando fraca, voltamos para o hospital onde fiquei novamente em observação tomando soro. Me liberaram no final do dia, passei a noite em claro, e no outro dia, voltamos para lá, só que dessa vez para um C.T.I. Conseguimos uma vaga em um hospital em Belo Horizonte. Fui de UTI Móvel. A nossa luta começou. Fizeram, com muito custo, uma tomografia, eu não conseguia mais respirar!

Me lembro de ter escutado o medico dizer que não era embolia pulmonar ou pneumonia. Então fui entubada!

Coma induzido

Fiquei cinco dias em coma induzido. Para mim, que fiquei apagada, foi difícil, mas para o meu marido e minha família foi muito mais. Meu marido resolveu levar a Luiza para BH, onde ela ficou na casa da minha cunhada (que também é Padecente). Ela pediu ajuda a vocês padecentes, pois na casa dela estava precisando de coisas para um bebê, berço, banheira, um guarda roupas. E sei, que ela conseguiu tudo com a ajuda de vocês e também uma corrente de orações!

Fiquei em coma induzido por cinco dias e quando fui desentubada acordei e meu marido estava lá (horário de visita), desesperado por uma reação e quando me viu só conseguia sorrir.

Eu não tinha noção de nada!

Onde estava?

Por quê?

Como?

E minha filha?

Miocardiopatia periparto

Queria sair dali, mas ainda não poderia, não conseguia falar devido a entubação. Meu marido me contou os acontecimentos durante esse tempo em que dormi, e sabe o que ele me disse? Que estava com um problema no coração.

Tive miocardiopatia periparto, também chamada de cardiomiopatia da gravidez, é uma causa rara de insuficiência cardíaca (IC) que afeta as mulheres no final da gestação ou no puerpério. É uma doença de causa desconhecida que tem consequências potencialmente devastadoras.

Devido a esse problema meus órgãos ficaram debilitados e os rins não funcionaram corretamente causando o derrame pleural (água na pleura / pulmão).

Mais luta

Sentia muita dor na costela esquerda, que na verdade era no pulmão, por causa da água. Não precisei fazer drenagem porque comecei a tomar corticoides em alta dosagem e a água foi secando. Quando pude ir para o quarto, o médico (que não posso deixar de dizer que salvou a minha vida, competência máxima) autorizou a minha ida até a portaria para ver a Luiza.

Foi um alivio vê-la, sentir o cheirinho, a carinha mais linda do mundo! Minha cunhada a levou umas umas vezes e depois disso tive alta.

Confesso que tive medo de voltar pra casa e passar por tudo outra vez. O médico conversou comigo e meu marido e disse que não posso ter mais filhos por causa da Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo. No fundo já sabia que isso poderia acontecer. Não fiquei abatida! Agradeci a Deus a oportunidade em estar viva e criar a minha filha.

Papel de mãe

Antes de voltar para casa, minha cunhada me acolheu na sua casa durante uma semana. Ela é madrinha da Luiza e, nesse período conturbado, fez o papel de mãe da minha filha. Lá ela tinha o próprio quartinho com berço, guarda roupas e até uma cadeira de balanço que foi doada por uma outra padecente.

Voltamos para casa e damos muito valor a oportunidade que tivemos de estarmos juntos. Tentamos aproveitar ao máximo a Luiza que tem hoje 1 ano e 5 meses.

Deixo meu relato como um alerta também! Não foi a 1° vez que tive um erro de diagnóstico médico. Dessa vez quase custou uma vida. Vejo que alguns problemas passam despercebidos, e como alguns dizem: é chilique de grávida.

Meninas que tem um problema como a Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo deve ficar atenta aos tratamentos e. principalmente, à condução do médicos. Não posso deixar de esquecer a fé que tivemos diante disso tudo. O amor do meu marido que segurou a onda e largou tudo para ficar ao meu lado e da Luiza e a nossa família.

Leia também:

Maternidade e Trombofilia

COMENTE:

1 Avaliação de Ser mãe é padecer no paraíso – Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo

janaina disse : Guest Report 4 years ago

ola! graças a deus acabou bem e sua filha é abençoada! Vc nao é de BH? Qual medico espcialista em gestaçao de risco me indica? E o hematologista? Grata, Janaina

Avalie este Fornecedor

Seu endereço de email não será publicado. Todos os campos são obrigatórios

ASMA ou BRONQUITE?

1 de junho de 2015

4=1 – Por Irene Belotti