05 de dezembro de 2014
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Parto em Moçambique – sendo mãe africana

Depois de oito anos de casada, pressão de todos os lados para ter um filho, um menino, “pressão” psicológica para ter um filho, já que em Moçambique somente os filhos homens vindos dos filhos homens são os considerados netos porque vão dar a continuidade ao nome da família e, até então, na família do meu marido esse herdeiro ainda não havia chegado. Eu me preparando para engravidar, ter um filho e fazer o parto em Moçambique.

Parto em Moçambique
por Cecília Carvalho

A descoberta

Tudo começou com uma viagem até a África do Sul em outubro, para comprar móveis para meu escritório. Depois de 45 dias veio o primeiro sintoma, saindo de casa, entrando no carro veio um enjoo daqueles. A desconfiança virou quase certeza. No dia seguinte a confirmação, a alegria, o choro de emoção e o primeiro choque cultural.

Não se conta a ninguém, ninguém mesmo, nem a família! Imagina minha agonia, querendo espalhar pra todo mundo! Tudo bem que nos primeiros meses ninguém gosta de dizer nada mesmo. Tem aquela coisa de esperar os três meses. Mas em Moçambique não se diz nada. As pessoas que notarem, se forem mais chegadas a você, podem comentar, mas evita-se. Os não tão chegados, nem comentam nada. Não se fala o tempo de gestação. Muito menos quanto tempo falta. Para a família no Brasil dei a notícia como se meu filhote estivesse escrevendo uma carta para os avós.

Os 9 meses

Foram nove meses muito tranquilos. Só engordei o peso do bebe. Minha barriga não cresceu muito. Quando a barriga começou a crescer meu problema era roupa. Normalmente há um código do que se pode e não se pode usar na gravidez. Tinha que usar só vestido bem largo porque aperta o bebe e ele não vira.

Acabava discutindo sempre com meu marido porque não queria vestir roupa de “saco”. Lógico que não ia vestir roupa apertada, mas também não queria usar uma coisa que não tinha nada a ver comigo. Fui comprar calças próprias e mostrei ao povo que não tinha problema.

Pré-natal 

O pré-natal correu às mil maravilhas. Eu estava doida pra saber qual era o sexo. Mas toda vez que ia fazer o ultrassom a criatura estava com as pernas bem fechadas. Só quando meu marido me acompanhou na consulta de sete meses ele resolveu mostrar “os documentos”. Era menino.

Imagina a alegria dos avos paternos quando souberam que, finalmente, teriam um herdeiro! Do outro lado: na minha casa somos quatro irmãs, meu pai não tinha um companheiro e na família dele também não tenho primos. O reizinho iria chegar!

Meus pais já tinham marcado a passagem deles para cinco dias antes da data prevista para o parto quando a bomba caiu. Minha médica saiu de ferias e, com trinta semanas, tive que me consultar com outro médico. No ultrassom ele descobriu que eu estava perdendo liquido amniótico! Paranoia total! Tive que ficar de repouso absoluto e tomar uns medicamentos. Quando minha médica voltou, poucas semanas depois, confirmou tudo e disse para anteciparmos o parto porque ela viria ao Brasil para um seminário em salvador e não poderia acompanhar meu parto e, com essa situação, ela não iria ficar tranquila. Tínhamos que esperar completar 36 semanas para fazer a indução do parto. Chorei de medo. Minha mãe correu pra agência pra remarcar a passagem e não tinha data disponível. Desespero total. Ia ter o bebe sem minha mãe!

As preliminares

Na reta final, depois do susto da antecipação do parto, conformada em ter meu filhote sem minha mãe por perto, estava bem tranquila. Mesmo sabendo que não teria anestesia no parto normal. Procedimento no hospital onde eu teria meu bebê.

O enxoval já estava completo e lindo. Minha mãe estava apaixonada por ter o primeiro neto e já tinha comprado tudo. Passei os nove meses vendo meu enxoval pelo Skype. Cada coisa que ela comprava me mostrava pelo computador. Como já tinha a data marcada, na semana que antecedia o parto fui arrumar o berço, banheira e cômoda que havia ganhado de uma amiga.

Foi quando me dei conta que existe vida após o parto! Minha mãe comprou todo o enxoval, mas ela só iria chegar 15 dias após o nascimento do meu filhote, já que não tinha conseguido remarcar a passagem! Como o filhotinho ia sair da maternidade sem roupa e sem manta. Como eu ia dar banho nele sem toalha e sabonete? Acorda Cecilia! Tive que correr pra loja pra comprar o básico pra pelo menos 15 dias. Imagina… Mães de primeira viajem… Mais uma vez as culturas se chocam… Não podia ficar muito tempo fora de casa, tinha que descansar e, mais uma vez, evitar encontrar com as pessoas.

O dia D

A noite foi longa… Eu era a ansiedade em pessoa. Às 7 da manhã, como combinado, liguei para minha obstetra.

_Bom dia Doutora, então como vamos fazer?
_Vamos fazer o que?
_Ué, você disse pra ligar pra combinarmos como seria feita a indução do meu parto.
_Ah tá! Verdade… Passa aqui no hospital, estou te esperando.

Pois é ela havia se esquecido… Eu e meu marido fomos até ao seu encontro, chegando lá ela disse que ele deveria comprar o comprimido X para que a indução pudesse ser feita e quando ele conseguisse, ligaria pra ela. Isso mesmo, nós teríamos que procurar a coisa que era bem difícil de achar.

Ela passou a receita, eu voltei para o escritório e ele foi à procura. Às 9 horas ele já havia conseguido e fomos ao encontro dela num outro hospital onde a indução foi feita na enfermaria. Havia outras mulheres começando o trabalho de parto. Fiquei de repouso em observação por 2 horas e, logo, alguns sintomas começaram a aparecer.

A obstetra pediu que eu fosse para o hospital onde teria o bebê, ela estaria lá à tarde. Dei entrada no hospital, me deram uma camisola pra trocar numa sala onde havia apenas uma cortininha, entreguei tudo que tinha para meu marido, e ele saiu do hospital carregando minhas coisas.

Pré-parto

Fui encaminhada pra sala pré-parto. No hospital não são permitidos acompanhantes. Só fiquei com meu celular. Minha mãe mandava mensagens a cada quinze minutos pra saber o que estava acontecendo. Meu marido, do lado de fora do hospital, também esperando notícias.

Cada vez que tinha que fazer o exame para escutar o coração do meu filhote tinha que ir andando pra outra sala. O equipamento era único, um trambolho de grande e bem arcaico. Daquela sala eu podia ver meu marido por uma janelinha. Vi várias mulheres entrando e saindo para a sala de parto normal que era bem ali ao lado de onde estávamos. Não havia porta, ouvíamos tudo que acontecia lá.

Em torno de dezesseis horas comecei a sentir dores mais fortes. Descobri que o tal exercício de respiração de cachorrinho funciona. Minha mãe ligava a cada meia hora. Toda vez que eu tinha uma contração mais forte com ela ouvindo, vinha uma oração junto e ela invocava minha avó, bisavó e todos os santos pra me proteger. Naquele momento decidi não mais falar com ela ao telefone, ela estava me deixando nervosa.

Em nenhum momento fiquei aflita ou insegura. Estava muito calma e sabia que aquilo não iria durar muito mais. Logo veria meu pacotinho. Às 17 horas 30 minutos minha GO chegou. Como minha bolsa não havia estourado resolveu fazê-lo. Eu aceitava tudo porque não tinha ideia se era certo ou errado. Só aceitava…

Parto em Moçambique

Às 18 horas as contrações aumentaram bastante. As dores eram bem fortes. Ela levou meu celular pro meu marido e disse que podia acontecer a qualquer momento. Havia somente outra mulher duas camas depois da minha que estava iniciando seu trabalho de parto. Nenhuma enfermeira ou médica estava na sala. Conseguia ouvir as vozes delas que vinham do final do corredor conversando e rindo… De repente tive uma sensação estranha e gritei:

Meu corpo quer fazer força!

Rapidamente vieram duas enfermeiras e minha GO. Me levantaram. Fomos pra sala ao lado. Chegou minha hora. Já estava conformada que não teria anestesia. Tive que juntar todas as minhas forças pra mágica acontecer. Já não tinha forças quando outra médica que estava ali por acaso subiu na minha barriga e começou a empurrar junto comigo.

Tive meu parto em Moçambique. Não demorou muito, meu pacote saiu as 19 horas e 45 minutos. Não veio o choro. Olhei para o lado e vi uma coisinha roxa. A médica e uma enfermeira sobre ele perguntava se deveria pegar a adrenalina. Eu toda mole. Sem forças nem pra entender o que estava acontecendo. Perguntei por que ele não chorava ela disse que estava tudo bem. Logo em seguida veio o choro. Alguns segundos de angústia o pesadelo passou… A enfermeira levou meu bebe. Eu voltei pra outra sala para me levarem para o quarto.

O bebê

Logo trouxeram meu filho, fui informada que ele estava bem, mas que deveria ir para a incubadora porque ainda estava meu roxinho e precisava se recuperar. Levaram-me para o quarto de cadeira de rodas e, no meio do caminho, encontrei meu marido e minha cunhada. Foi um encontro rápido, subi até o quarto e só os encontrei novamente lá. Mais tarde uma enfermeira entrou, acendeu a luz com a delicadeza de um elefante apanhando flores num jardim de cactos, meu deu uns comprimidos e me informou os horários que deveria subir pra pediatria para amamentar. Mais um choque, meu filho não ficaria comigo no quarto. Passei a noite sozinha, procedimento padrão do hospital. Na manhã seguinte o dia começava às 6 horas quando deveria subir pra amamentar…

02

O primeiro dia do resto da minha vida

Acordei às 5 horas, uma hora antes do horário que deveria subir pra amamentar, como não tinha nada pra fazer e fui para a pediatria. Chegando lá só dava pra ver uma sala cheia de incubadoras. Pela janela a enfermeira perguntou qual era meu nome pra poder identificar meu filho. Ela me disse que eu não iria poder amamentar porque ele ainda estava na incubadora e mostrou qual era.
De longe não dava pra ver muito bem, ele estava de costas pra mim, mas naquele momento achei aquela criança muito mais escura e com o cabelo bem diferente do que eu havia visto no dia anterior, mesmo que rapidamente, quando a médica veio me mostrá-lo e eu pude dizer oi e ele abriu os olhos pra me ver, já foi tempo suficiente para que eu guardasse todas as suas características.
Nem questionei, mas fiquei ali vendo as outras mães chegarem para amamentar seus filhos. Meu instinto dizia pra não descer… Nesse momento, minha médica ligou pra saber como estávamos e eu informei o acontecido, ela ficou uns segundos em silêncio e disse que viria ao meu encontro. Eu ficava olhando pra aquela criança que disseram ser o meu e ainda não acreditava que era ele, em 20 minutos ela chegou e entrou logo onde os bebês estavam.
Via a movimentação de pranchetas, um vai e vem danado e logo ela sai com meu filho nos braços pra que eu pudesse amamentar pela primeira vez meu pacotinho que ainda não tinha um nome escolhido. Ali tive certeza que era mesmo ele, mas não era aquele que haviam me apontado, era o MEU filho, de verdade. Minha médica disse que achou estranho quando relatei que ele ainda estava na incubadora, ele estava roxinho, mas já estava pegando cor e não justificava ainda estar lá até aquele momento.

A troca

Durante a noite, quando ele saiu da incubadora e colocaram outra criança, não trocaram o prontuário! A sorte é que as crianças recebem a pulseirinha com o nome da mãe quando saem da sala de parto no mesmo momento que colocam a da mãe e mostram o nome na etiqueta. Imagina o meu susto! Mas como eu estava bem passada ainda, não fiz escândalo e só queria amamentar e olhar pra aquele rostinho e cantar pra ele.
O dia foi longo, a cada 3 horas eu subia pra amamentar com outras mães. À tarde recebi visitas do meu marido, sogra e cunhadas, que trouxeram almoço, lanche e conversaram um pouco, mas ninguém podia ficar. Dormi o dia todo e trocava mensagens com minha mãe que estava aflita no Brasil e ficou chocada com o que havia acontecido.
No dia seguinte fui pra casa da minha cunhada, onde também meus pais ficariam hospedados, já que minha casa não tinha como recebê-los. Lá tinha a empregada que iria me dar um apoio durante o dia enquanto estivessem trabalhando. Meu marido não podia ficar comigo o tempo todo porque ele estava tomando conta do nosso escritório e tocando os projetos. Logo minha mãe chegaria e tudo estaria resolvido.

Capítulo VI: os dias seguintes e os rituais culturais

Alguns meses antes do parto, perguntei à minha sogra se ela sabia se havia cursos para mães de primeira viagem, ela não sabia dizer, mas acreditava que não existia. Então a solução foi a internet, como Dr. Google é uma mãe! Nos dias seguintes ficava mais tempo com a empregada, minha sogra não ia muito à casa da filha, passava lá pra ver como estávamos, mas não ficava.

Dias depois, viva! Vovó e Vovô chegaram! Fiquei mais tranquila, mas como já havia aprendido dar banho e trocar fralda pela internet, não tive grandes dificuldades. Foi tudo ótimo nos dias que se seguiram, mas como tudo que é bom, dura pouco… O momento mais difícil foi ver minha mãe se despedir do meu Ethan no aeroporto sem saber quando o veria novamente… Chorei rios de lágrimas… Naquele mesmo dia voltei pra minha casa e a vida continuou.

Meses depois, num almoço de família na casa dos meus sogros minha sogra comentou que, no início, não ficava muito tempo comigo porque achava que eu iria deixar pra ela fazer tudo e cuidar do meu filho já que eu tinha perguntado sobre o curso pra aprender a fazer as coisas que iria precisar e disse:

Hum, essa daqui, nem sabe fazer nada e vai deixar pra eu fazer tudo, mas depois eu vi que não, você até fazia tudo direitinho…

Engoli seco e nem comentei… fazer o que né… 

Aprendendo a ser uma mãe africana

A partir daí, iria aprender o que era ser uma mãe africana. Uma das primeiras coisas foi aprender a carregar meu filho na capulana, seria um verdadeiro pacotinho, e como aquilo era prático… Com ele ali dentro, eu podia amamentar, ir às compras, arrumar a casa e tudo com as mãos livres!

Depois disso passei por uma reunião explicando o que deveria ser feito com aquela criança que acabara de chegar.

Antepassados

A primeira coisa era apresentá-la aos seus antepassados para que eles a pudessem a proteger. Fomos para o quintal da casa dos meus sogros onde existia uma árvore grande com uma casinha de madeira construída na sua base. Ali, em língua local, meu sogro invocou seus antepassados e fez a cerimônia de apresentação. Pra mim, era um ritual simbólico, mas para eles era de fundamental importância para a saúde do meu filho, para que nada de mal o acontecesse, com aquela cerimônia ele estaria protegido de todo mal.

Curandeiro

Dias depois teríamos outro ritual, dessa vez num curandeiro (quase um pajé nos moldes que conhecemos no Brasil). Uma pequena fogueira foi acesa, o fogo apagado e ficou somente a brasa, eu teria que segura-lo nu, a céu aberto sob a lua, por cima daquela fumacinha até que ele fizesse xixi. Não lembro qual foi a explicação para esse ritual, mas também era muito importante fazê-lo.

Ervas

Depois disso, me foi entregue uma panelinha de barro cheia de ervas que eu deveria encher de água, ferver, e dar uma colherinha todos os dias para o meu filho. Diziam que esse líquido, que era amargo de dar dó, era para evitar ataques de epilepsia que diziam ser muito comum. Todas as crianças em todas as famílias tinham aquela panelinha em casa e deveriam tomar aquilo até os cinco anos.

Essa parte eu não dei continuidade, não achava aquilo necessário, minha empregada insistia em ferver aquela coisa todos os dias, mas eu não dava pra ele. As ervas secaram, eu deixei aquela panela no fundo do armário até ser completamente esquecida semanas depois.

Proteção

Tivemos que colocar um cordão de tecido bem soltinho quase chegando à barriga, em volta do pescoço do Ethan com um pingente preparado com não sei o que para que ele ficasse protegido de mal olhados que pudessem o atingir, assim como o cordão que ficou amarrado abaixo da minha barriga durante toda a gravidez e que foi cortado somente na véspera do parto pelo mesmo motivo e para que não sofresse nenhuma perda.

Imagino que muitas pessoas irão questionar porque aceitei fazer tudo aquilo com meu filho. Antes de tudo acontecer, meu sogro explicava o porquê de tudo e como iria acontecer. Apesar do ocorrido que relatei acima com minha sogra, eles sempre foram muito corretos comigo, me acolheram muito bem e se preocupavam com o que eu acharia daquilo tudo. Se eu não quisesse, iriam respeitar, mas ao mesmo tempo, eu achava que não teria problema seguir uma cultura que, para eles, era tão importante. Nunca nada disso fez mal ao meu filho e essa era a minha única preocupação.

20

As voltas que o mundo dá.

O final dessa história acontece no Brasil. Dois anos depois de tudo isso acontecer, voltei para a casa dos meus pais em Belo Horizonte. Somente eu e meu filho. Apesar da distância, meu pequeno Ronga (etnia do pai) sabe de onde veio, tem orgulho de ter nascido em Moçambique e fala sempre de lá, apesar de não se lembrar de nada, inventa histórias de quando era bebê e da convivência com o pai. Sabe o nome dos avós paternos e sempre falo sobre os primos e tias, apesar de não ter muito contato, por enquanto, continua sendo o único que irá perpetuar o nome da família. Ensinei a cantar o hino de lá e prometi que iria levá-lo para conhecer sua terra natal. Ainda não sabemos quando será essa viagem, mas espero ainda existir o padecendo para contar mais essa aventura.

Cecília Carvalho

Leia também:

Paula Bianchini na Itália – parto

COMENTE:

1 Avaliação de Parto em Moçambique – sendo mãe africana

Priscila disse : Guest Report 2 years ago

Amei o seu relato. Super interessante. Gostaria de conversar melhor com você a respeito. Você tem como entrar em contato, por favor?

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