09 de agosto de 2013
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Família comercial de margarina

Conheci o Fernando, meu marido, em 1997. Nós trabalhávamos na mesma empresa. Começamos a namorar no ano seguinte, e desde que o namoro ficou sério falávamos em ter filhos. Sonhávamos com a família comercial de margarina: um casal de filhos, que já tinha até nome – Mateus e Luana.

Família comercial de margarina – por Andressa Borges Fidelis

Casamo-nos em 2001 e decidimos esperar pra ter filhos. Eu tinha 22 anos, era muito nova, e podia esperar antes de engravidar.

No final de 2003 parei de tomar a pílula e achei que em no máximo três meses estaria grávida, mas isso não aconteceu. Continuamos tentando e quando a marca dos seis meses bateu, pedi pro meu médico um monte de exames. Os exames do Fê voltaram alterados, mas o médico me disse que aquelas alterações não eram importantes e que a gente continuasse tentando. Mesmo assim, nada da gravidez vir. Usamos indutores de ovulação, mas eles também não funcionaram.

Eu me sentia cansada, frustrada e incompreendida: todo mundo me dizia que eu só precisava relaxar que a gravidez viria, mas a infertilidade é muito mais que isso. Todo mês era um drama quando a menstruação chegava. Eu me sentia frustrada, culpada, chateada e as pessoas não conseguiam entender por que.

Quando completamos um ano de tentativas, procurei uma clínica de fertilização in vitro. Queria saber como a coisa funcionava, só por desencargo. Levei meus exames e os do Fê comigo. O médico olhou tudo e disse que comigo estava tudo muito bem, mas que ele queria exames mais detalhados do Fê. Os resultados indicaram que a gente precisaria fazer mesmo uma Fertilização in Vitro. Fiquei arrasada e muito assustada, mas não tinha outro jeito.

Fiz o primeiro tratamento durante as minhas férias do trabalho. Um sem fim de injeções e medicamentos e ultrassons, desconforto físico e uma espera avassaladora de 14 dias para a entrega do resultado do exame de gravidez.

Nesta primeira tentativa nós optamos por transferir três embriões. Transferir os embriões não é garantia de gravidez e certa “perda” é esperada, é bem comum que um ou dois embriões não se fixem no útero. Eu gostava da ideia de engravidar de gêmeos: dois filhos de uma vez só, apesar do trabalho, encerrariam nossa família e eu não precisaria passar por outro tratamento.

Depois do que pareceu uma eternidade pegamos o resultado do exame de sangue: POSITIVO! Foi o dia mais feliz da minha vida! Todo aquele tratamento tinha valido a pena!

Nas semanas seguintes estivemos na clínica para ultrassons de controle que nos trouxeram outra surpresa: eu estava grávida de trigêmeos! Os três embriões haviam se fixado e estavam se desenvolvendo bem! O médico quis nos precaver e nos disse que infelizmente era bastante comum que em algum ponto até as 12 semanas um dos bebês parasse de se desenvolver, mas que até o momento estava tudo bem. Ele me indicou para um obstetra especializado em gestação de risco e me deu alta.

Este obstetra já deixou bem claro, na primeira consulta, que a minha gravidez era de risco e que muita coisa ia ter que ser feita pra gente levar a gestação de forma segura. Meu parto normal, um sonho, ia por água abaixo. Ele faria uma cesárea. Mas eu não me importei: com filhos “em atacado” a via de nascimento era o que menos importava.

A gestação foi uma bênção: não tive enjoo, me sentia super bem disposta, mantinha a minha rotina como sempre. Com umas 14 semanas soubemos que teríamos um menino e duas meninas: Mateus, Luana e Júlia. Abençoados com o comercial de margarina e ainda mais!

Compramos móveis, decoramos o quarto, compramos roupinhas e já íamos deixando tudo prontinho porque eu precisaria entrar de repouso com umas 23 semanas de gestação. Até o chá de bebê fizemos tudo adiantado, pra eu poder participar sem medo. Era um sem fim de mamadeiras, fraldas, lenços umedecidos…

Quando eu estava com 20 semanas de gestação – cinco meses – meu marido foi passar uma semana na Argentina à trabalho. Minha sogra veio ficar comigo – eu tenho uma relação ótima com ela. No meio da semana eu me senti mal. Fui à farmácia e minha pressão tinha subido um pouco. Acabei indo ao PS pra verificar. A pressão já tinha baixado, meu colo do útero estava fechado, os batimentos dos pequenos firmes e fortes. Voltei pra casa.

Fernando chegou dois dias depois. Fomos até a rodoviária de BH deixar minha sogra e quando voltamos pra casa eu comecei a me sentir mal de novo. Eu não conseguia identificar bem o que era um desconforto na parte baixa da barriga. Fiz meu marido me carregar pro PS pra eu poder dormir tranquila. Mas quando chegamos lá, tudo mudou.

Eu estava com dois centímetros de dilatação, a bolsa do primeiro bebê (o Mateus) já estava querendo sair. Eu estava em trabalho de parto prematuro, a situação era gravíssima e eu ia ser internada. Pânico é pouco pra descrever o que eu senti.

Fui para o quarto, com instruções expressas de não me levantar pra absolutamente nada e comecei a tomar um sem fim de medicações. Durante a noite eu não preguei o olho, estava em estado de alerta. Na manhã seguinte as coisas pareciam ter melhorado, mas algumas horas depois eu vi que tinha sangue entre as pernas. O médico de plantão me examinou e anunciou sem dúvida: estes bebês nascem hoje. E fiquei paralisada.

Eu estava com 22 semanas de gestação. Eu sabia que, se eles nascessem não teriam a menor chance de sobreviver.

Fui levada para o bloco e tomei a anestesia. Meu parto foi normal e difícil. Nunca pensei em ter uma cesárea. Por mais que pareça muito difícil ter um parto normal numa situação destas, é melhor para o corpo da mãe e também, acredito, para o psicológico. Eu não queria ter, além de tudo, uma cicatriz física pra me lembrar daquele dia.

Mateus e Luana viveram por uma hora cada um, e eu não os vi vivos. Júlia, a terceira, nasceu morta…

Depois de tanta alegria, no dia 9 de dezembro eu tive a maior tristeza da minha vida. Aquele Natal e Réveillon foram terríveis. E terrível também foi o meu período de luto. Eu não tinha com quem conversar. Não conhecia ninguém que tivesse perdido um filho. Li muito na internet comprei livros importados em inglês para poder saber se o que eu sentia e pensava era normal. Por fim encontrei um grupo virtual só de mulheres que haviam perdido filhos e ali pude ver que eu era normal, que meu luto era real, que minha dor era legítima e que sim, um dia, as coisas podiam melhorar.

Seis meses depois voltamos à clínica. Meu obstetra me deu instruções específicas de que eu não podia engravidar de gêmeos. Tudo o que eu passei dava indicações claras de que meu corpo teria dificuldade de suportar uma gestação múltipla. Fizemos mais uma vez o tratamento e no dia da transferência optamos por transferir apenas um embrião. Nossas chances de engravidar eram menores, mas eu preferia NÃO engravidar a perder outro filho.

Engravidamos de novo! Mas a felicidade era mais contida. Curti a gestação, mas sempre tinha aquela pulguinha atrás da orelha, aquela lembrança de que não sabemos o que vai acontecer. Com 25 semanas de gestação da Ana Clara, entrei em trabalho de parto prematuro de novo. Desta vez eu já sabia o que era, cheguei ao hospital mais rápido e meu obstetra foi até lá para fazer uma cerclagem (uma “costura” no colo do útero) de emergência. Fiquei uma semana internada e mal acreditei quando saí de lá ainda grávida.

Ana Clara nasceu com 36 semanas de gestação, parto normal como eu queria, pesando 3,210 quilos e medindo 51 centímetros! Uma bênção! Mas ainda queríamos outra criança. E agora, depois da gestação da Ana Clara, sabíamos muito bem que meu corpo não lidava muito bem com qualquer gestação, simples ou múltipla. Demorei muito pra criar coragem de engravidar de novo.

Ana estava com um ano e meio quando eu fui à clínica e fiz mais um tratamento. Desta vez transferimos um embrião que estava congelado. Somente um, mais uma vez. E mais uma vez engravidei.

E entrei em pânico quando tive um sangramento grande com cinco semanas de gestação. Tinha certeza que tinha perdido o bebê, mas não. Por conta disso e do meu histórico, meu obstetra decidiu fazer a cerclagem do útero mais cedo, com 14 semanas.

A gestação seguiu bem até as 30 semanas de gestação, quando mais uma vez entrei em trabalho de parto prematuro. Mais uma internação. Mais medo. E mais um bebê saudável.

Lucas nasceu também às 36 semanas de gestação, de parto normal, com 3,290 quilos e 51 cm.

Ana hoje tem seis anos, Lucas quatro, e encerramos nossa família. São cinco filhos, três gestações, e muita história pra contar. Tudo documentado em blogs que mantive durante o período. A história é grande e rendeu um livro, muitas amigas reais e virtuais que acompanhei em suas gestações de risco, muitas alegrias e algumas tristezas. Muitas vitórias. Hoje tenho uma família comercial de margarina.

Foto: Bruna Tassis
Foto: Bruna Tassis

Ainda quero formar um grupo de apoio pra mulheres que perderam seus filhos ou que enfrentam a infertilidade. Ano passado fiz um curso sobre luto em SP, um assunto interessantíssimo pra entender como é o processo de perda que vivenciamos com a morte (especialmente) e com outras situações de perda em nossas vidas. Ainda é uma semente que espero plantar e um dia colher frutos.

Minha história não saiu nem um pouco como eu planejava, mas ainda assim é linda e eu me orgulho dela. Não mudaria o que eu vivi, pois me abriu os olhos para os outros e me fez entender melhor as pessoas e como ajuda-las.

Ana Clara e Lucas sabem que tem três irmãos que estão no céu. Uma vela fica permanentemente acesa aqui em casa em memória deles. Eles vieram e se foram em 2005. Depois vieram Ana em 2007 e Lucas em 2009. Estou casada desde 2001. A vida dificilmente fica melhor que isso!

Espero de coração, que as pessoas saibam que por pior que seja a tragédia que se apresente em nossas vidas, é possível sobreviver. É possível seguir em frente. É possível voltar a ser feliz.

Eu fiz isso. Muitas outras pessoas queridas também. Você também pode.

Muita luz.

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