24 de novembro de 2017
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Em terra de liso quem tem crespo é rei

Em terra de liso quem tem crespo é rei. Essa é a história da Natália Larsen que saiu do Brasil e hoje mora na Dinamarca. Padecendo pelo mundo.

Natália Larsen Padecendo pelo Mundo

Parece ironia, mas como em um país onde praticamente todos, se não todos têm sangue negro, sofrermos com um racismo enrustido, enraizado? Somos desde cedo educadas para pentear o cabelo, arrumar, abaixar, prender…

“vai sair com esse cabelo?”

“Arruma o cabelo dessa menina”

Dizia meu pai.

Minha mãe, desde que me entendo por gente, me levou nos melhores e mais variados salões especializados em alistamento. Eu nem sabia mais como meu cabelo natural era. Na escola particular que estudei em Belo Horizonte, só eu na minha sala tinha o cabelo afro. Sempre foi assim.

Já adulta conheci meu marido dinamarquês que me achava uma deusa. Quando acordávamos de manhã, eu com aquele cabelo que vocês imaginam, falava que eu estava linda. Quando contei pra ele que meu cabelo era crespo quando natural ele me pediu veementemente para parar de alisar. Na cabeça dele não fazia o menor sentido eu alisar o cabelo. Para ele quanto mais volume melhor. Em terra de liso quem tem crespo é rei.

Em terra de liso quem tem Crespo é rei

Transição capilar

Muitos anos se passaram, muitos anos de terapia e tudo veio à tona. Aos 24 anos cortei meu cabelo comprido, na cintura, curtinho para me livrar do liso. Precisava saber quem eu era. Queria engravidar. O medo de ter uma menina batia a minha porta:

Como eu poderia educar uma criança e ajuda-la a construir sua auto-estima, se a minha estava em frangalhos?

Joachim

Em 2010 veio o Joachim. Um bebe lindo. Lindo e perfeito. Lindo, perfeito e mais do que isso: Ele era loiro. Do cabelo branco. Era inacreditável. E o que eu vivi com um bebe tao branco e loiro foi a confirmação de tudo.

Eu era parada na rua, nos shoppings. As pessoas ficavam encantadas com ele, tão branquinho que chegava a ser rosa. Cabeludo e loiro! Os olhos dele são castanhos e lindos. E o que eu mais ouvia era:

Ai que lindo que ele é, que pena ele não ter puxado os olhos azuis do pai…

Em terra de liso quem tem Crespo é rei

Em terra de liso quem tem crespo é rei

Em 2011 vim morar na Dinamarca. Então o choque cultural e a experiência de ser tão diferente me trouxe muitas reflexões. Ao invés de me sentir inferior, por não ser alta magra, loira de cabelo liso e olhos azuis, eu percebi que eu era linda! E o meu filho que, “tadinho”, não tinha os olhos azuis também virou estrela por aqui. E sabe porque? Porque ele tinha os olhos escuros!

Sempre ouvi da minha mãe que eu não podia usar batom escuro, marrom, vermelho, porque já tinha os lábios mais escuros e ficava feio. Ela dizia:

Fica igual boca de cachorro.

Com raiva, em meio às brigas na minha adolescência ela também dizia:

Já não é bonita, tem que ser pelo menos educada.

Sei que ela não fazia isso por mal, o racismo e conceito de beleza estão enraizados em nós, não nos damos conta dele.

Ouvi também que roupa preta não fica bem em que é moreno ou negro.

Preto com preto não dá!

Não dá pra quem?! Aqui na Dinamarca preto é uniforme. País frio, um inverno que começa em outubro e vai até abril, o que a gente usa? Preto!

E eu, vou vestir o que? Eu visto o que eu quiser! Quando uso roupas, maquiagem, ou batom de qualquer cor, o que eu escuto é:

Mas tudo fica lindo em você, olha a cor dos seus olhos, da sua pele?! A gente aqui e tão pálido…vou ficar com mais cara de doente se usar uma cor assim. Você pode!

Brasil x Dinamarca

De jornalista passei a ser cabeleireira. Era um sonho antigo. Trabalho com as dinamarquesas lindas, altas, loiras, magras e de olhos azuis. E o que elas querem? Ter o cabelo crespo, volumoso e escuro! E não é só isso, elas querem também os meus lábios grossos e escuros!

Nosso ideal de beleza está onde o negro não está. Nada que nos remete ao negro/escravo é bonito. É sinônimo de pobreza. A escravidão ainda está enraizada na nossa cultura. Negro que é escravo, que é inferior, que é pobre. Quem quer ter qualquer semelhança que seja? Ninguém quer.

Não conheço a fundo a historia da Dinamarca. Mas sei que já tiveram escravos. Só que aqui preto e só uma cor diferente do branco. Cabelo crespo e simplesmente diferente do liso. Não existem associações inconscientes.

Se foi fácil lidar com todas essas coisas? Não. De jeito nenhum. E ainda não é. Nesse país, que me acolheu bem em todos os sentidos, tive a oportunidade de saber quem eu sou, do que eu gosto. Me sinto privilegiada por isso.

Escrevi para me ouvir. Para dar um tapinha  nas minhas costas do tipo: que evolução!

Mamães de menina: digam sempre as suas filhas como elas são lindas, como o cabelo delas é lindo, façam penteados volumosos, pensem mil vezes no tom ao dizer “vai arrumar esse cabelo” ou coisas do tipo….

E o principal e mais difícil: você mamãe é o referencial de beleza da sua filha. Não adianta dizer a ela que seu cachinhos são lindos, que não precisa abaixar o cabelo, se você não se ama como você é. Você é o espelho da sua filha. O que é lindo ou feio pra você, assim será pra ela também.

Natália Larsen

Leia também:

Racismo por Jéssica Rocha

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2 Avaliação de Em terra de liso quem tem crespo é rei

Renata disse : Guest Report 2 years ago

Adorei! Moro na Suécia e é assim mesmo! Os cachos fazem o maior sucesso! A pele morena é sonho de todos! Interessante que tivemos que sair do país para valorizar as nossas características! ? Renata/Instagram minhacasasueca

Gustavo Mata disse : Guest Report 2 years ago

Sua história me fez lembrar meu sobrinho, que nasceu e mora na Irlanda. Tem olhos azuis. Minha irmã, que temo lhos castanhos, sempre escutava qdo ele ainda era recém-nascido: preocupa não que pode ser que ainda escureçam (sobre os olhos do meu sobrinho). O idea lde beleza lá é o diferente, os olhos castanhos!

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