04 de abril de 2019
Comentários( 6 )

A partida do Benjamin

Há um tempo venho pensando em colocar no papel tudo que aconteceu comigo e minha família, com a partida do Benjamin. Penso que, talvez, o desabafo, a escrita possa suavizar um pouco a dor. Só a dor. A saudade não.

Não é sobre abrir a minha vida para o mundo. É sobre ajudar outras pessoas a enxergarem a dor e a perda de forma diferente. Tudo tem um propósito.

Pra quem já conhece a minha história, venho de uma sequência de perdas desde o nascimento do Bernardo, hoje com 7 anos. Foram 4 perdas consecutivas, cada uma com sua particularidade e dor física e da alma. Muitos tropeços com médicos, atendimentos e julgamentos.

A quem se interessar ou ao menos querer um empurrão de fé e vontade, pode ir até a página do padecendo e conhecer o texto 4 =1.

Perdas

Depois das 4 tentativas frustradas e após inúmeros exames, conhecendo os mais conceituados especialistas em genética, obstetrícia, hematologia, etc, etc, etc… descobrimos que eu e meu marido estávamos com a saúde 10. Sem qualquer tipo de problema. As amostras que conseguimos enviar – aquelas que foram através de curetagem, foram para análise de cariótipo, de genética, inclusive uma foi pra fora do Brasil e… nada.

Soubemos que se foi uma menina, um menino. Outros não tivemos como analisar, pois foi realizado em casa, que foi um dos mais dolorosos, porque dei literalmente descarga no meu filho. Eu senti sair, vi rapidamente e me despedi.

A história do Ben vai além. Poxa! Foram 4 abortos espontâneos. Passamos do crivo do primeiro trimestre. Ufa! Todos os exames normais. Nenhuma alteração, até o último mês de gestação, que identificamos um aumento do líquido amniótico, mas que de acordo com os exames, tudo dentro da normalidade.

Numa sexta-feira, num exame de rotina, no próprio consultório do meu médico, na audição dos batimentos cardíacos, que o silêncio tomou conta da sala. Foram longos minutos e intermináveis para tentar ouvir os batimentos e nada. Médico me perguntou se eu o sentia mexer. De prontidão: lógico, claro, ele mexeu aqui na sala de espera, ainda comentei com o Thiago, meu marido.

E como eu estava certa de que o médico estava enganado e por uma falta de sorte ele não conseguiu ouvir os batimentos? Eu conversava com o Benjamin, pedia pra ele se mexer, pra provar para o médico o quanto ele estava equivocado em solicitar ali, naquela hora, que fizéssemos um ultra de emergência, pois pra ele, algo não estava normal.

Ultrassom de emergência

Saímos de lá e fomos direto para o Dopsom. Pedi urgência, pois nesse momento, eu já estava tendenciosa a acreditar no médico, não mais em mim. Demorou um pouco, até que meu obstetra entrou em contato com a profissional que faria o ultra e fomos atendidos.
Entramos na sala, me deitei e em pouquíssimo tempo a médica informou com as palavras que nunca saíram da minha mente “é… infelizmente está sem batimento cardíaco”. Eu disse “tem certeza? Olha de novo”. Ela “tenho, infelizmente.”

Um buraco gigante

Me abriu um buraco gigante naquela maca. Só me lembro de ter estendido a mão direita para o Thiago e nos apertamos muito, como cúmplices de mais um novo e triste episódio que teríamos pela frente.
Me levantei da maca como se tivesse flutuando. Não sentia minhas pernas, eu não ouvia minha voz. Lembro de ter ficado em outro mundo, como se a qualquer hora fosse desfalecer. Me levaram para uma sala ao lado, me deram água e me deitei. Fiquei pouco tempo. Queria ir pra casa. Mas antes, era necessário levar o ultra para o médico e saber quais seriam os próximos passos.

Saindo de lá, olhei para o Thiago e perguntei “vamos tentar de novo?” A resposta veio pronta “claro, o que você decidir, será isso”. 

Cheguei chorando muito e a secretária, Juliana, não se conteve e chorou comigo. Entramos na sala, mostramos o ultra e ouvimos do médico “é… não deu. Não foi dessa vez, de novo.” Enquanto eu, ainda sentada, ouvia as orientações como se tivesse ecoando as palavras na minha cabeça, todas vindas de muito longe, apesar de não me lembrar de tudo, uma frase ficou martelando minha mente. Thiago perguntou como seria depois de nascer. “Vocês vão ter que enterrá-lo”. E soou enterrá-lo, enterrá-lo, enterrá-lo…
Meu Deus, como eu vou dar conta disso? Caixão, velório, cemitério, informar para as pessoas…

Cheguei em casa e fui para o meu divã, conversar com Deus. Liguei o chuveiro e por 2 milésimos de segundos, sem exageros, veio uma pontinha de revolta, que eu mesma, tratei de mandá-la embora. Foi quando comecei a agradecer por tudo que estava acontecendo, mesmo sem saber ao certo do que me esperava, mas só falava obrigada, obrigada… Pedia uma coisa: que tivesse força pra enfrentar tudo e que esse momento me amadurecesse o suficiente pra tentar tudo de novo. Em meio ao caos, à tristeza profunda, eu queria tentar mais uma vez.

Como informar à minha família, à família do Thiago, aos nossos amigos? Não tínhamos forças pra isso. Pessoas ao nosso redor foram fundamentais, Andrezza, Regina, Thukeza, Carol, Léo, levaram na raça e, tenho certeza, com os corações partidos, a notícia de que nosso novo sonho tinha chegado a fim.

Decisões

Em conversa com o médico, eu teria que decidir sobre fazer uma cesariana ou parto normal. Caso optasse pela cesárea, eu, com 40 anos, teria que aguardar mais tempo ainda para tentar outro filho novamente. Aí esbarraria nas estatísticas – que por sinal, me acompanhavam em tudo e eu sempre estava na minoria. Já foram 4 abortos espontâneos, a chance de ter outro seria muito maior. Após os 40, a chance de ter alguma anomalia, alteração cromossômica, só cresceria. Pareci que estávamos entrando num túnel escuro e as chances de sair dali eram mínimas.

Thiago, meu companheiro dessa vida e de outras tantas também, me disse que a decisão que eu tomasse, seria a escolha da família. Definimos então aguardar o parto normal, mesmo não tendo a certeza que seria dessa forma.

Foram eternos 5 dias com o Benjamin sem vida, junto comigo, aguardando o momento dele. Não tinha como não lembrar que ele estava ali, pois eu trazia comigo uma barriga considerável. Afinal, já estava no 9º mês de gestação.

Quarto pronto, mala da maternidade, lembrancinhas, sonhos… só nós não estávamos prontos. Minha família veio ficar em casa comigo. Minha mãe (não consigo escrever sobre ela) e meus irmãos. Minha casa vivia cheia de pessoas queridas, que vinham diminuir um pouco a nossa dor. Eram muitas perguntas, de todos os tipos e eu tentando responder uma a uma. Foi um período muito doloroso, interminável, mas de grande maturidade. Não me perguntem como, mas eu agradecia a Deus por tudo aquilo que estava acontecendo. Às vezes eu me pergunto como eu consegui agradecer, mas era algo muito maior, não consigo explicar.

Hora de preparar os papeis do cemitério, custos, escolher caixão. A família do Thiago se encarregou disso. Era demais pra gente. Ter que desfazer a mala da maternidade e escolher a roupa que ele seria enterrado. Esse foi um dos momentos que mais me doeu. Aquela dor que fere, que vai lá no fundo e parece não querer sair. Separei a roupa. Um macaquinho azul marinho lindo, em linho, presente dos padrinhos Léo e Carol.

O andar dos partos

Dia 15 de fevereiro de 2017 comecei a sentir fortes dores, mas achava que iria passar. Quase 10 da noite, me deitei e tentei dormir. Acordei com uma dor ainda mais forte e fomos para o Mater Dei. Chegando lá, 4 cm de dilatação e já me levaram para o andar DOS PARTOS.

Sim, a cada dor, um choro de bebê nascendo. Aquilo tudo ali me revirou. Fiquei tão confusa, a ponto de achar que eu estava ali pra ter meu filho vivo. Um misto de sentimentos atormentadores. Tudo muito estranho. Cheguei a ouvir os avós elogiando os netos, choro de emoção dos pais…

E lá se foram 8 horas de parto em meio a muito sangue. Muito. O cheiro hoje, de sangue, ainda me remete à essas lembranças…
Meu médico, o Dr. Henrique Leite, esteve ali comigo o tempo todo, me chamando de “Florzinha” e tentando aliviar a dor da minha alma. Até que chegou o momento da vinda do Ben. Numa sala fria, vazia.

Eu, Thiago, os médicos e as enfermeiras. No lugar de comentários felizes e risos, o silêncio arrebatador e sinais somente dos instrumentos na bandeja, até que escuto “Você vai querer ver seu filho”? Ainda deitada, já estendi meus braços pra pegá-lo. Thiago me ajudou a levantar meu corpo da maca, a sentar e receber o bebê mais desejado.

Estava ele ali, inchado, já sem boa parte da pele e LINDO. Encantador. Ele me trouxe, naquele momento, uma paz incapaz de ser descrita aqui. Um momento de transmutação de amor, de gratidão. Presença incontestável de Deus. Uma força incomum me cercava, me abraçava de tal forma que não fui capaz de derramar uma lágrima. Deus estava ali comigo e o amor que envolveu aquele momento foi eternizado por mim, nas minhas lembranças. Agora, escrevendo, posso sentir novamente um estado de espírito único, leve, consolador, de muito amor.

Eu e Thiago despedimos do Ben com uma oração, beijos, abraços e o entreguei para a enfermeira. Depois disso, vendo-o na balança, encarando os procedimentos normais, pedi que me deixasse ficar com ele no colo, por mais um tempo. Ele tinha a boca mais linda desse mundo. Despedi-me novamente e o entreguei para sempre.

Fiquei exatos 3 dias sem lavar minha mão direita, pois nela ficou o cheiro dele. Era como uma parte dele em mim. Eu não conseguia deixar com que essa lembrança fosse embora.

Era necessário ainda, secar o leite. Eu não teria como doar. Cheguei a pensar nisso, mas seria um caminho sem volta e ter que tirar o leite, por várias vezes ao dia, aumentaria muito a dor da ausência do Ben. Preferi então, tomar o remédio. Ainda no hospital, Thiago saiu pra comprar o tal remédio e contou com uma sacola diferente. Dali, saiu um pingente maravilhoso, de um menino com boné. Não se ouvia uma palavra no quarto, um longo abraço de dor nos envolveu. 

A despedida

Sobre a despedida, no cemitério, um dia triste, com muitos amigos verdadeiros, presença de uma pessoa especial que eu não conhecia, mas que já havia passado pelo mesmo e estava ali pra se solidarizar. Dani Shneider, hoje nossos anjos estão juntos, olhando por nós.

Resiliência

À minha família, minha mãe (minha inspiração), à família do Thiago, à Celene, à minha Panela, à Azamigas, às amigas de Guarani, ao Padecendo, às amigas de BH, às mães de anjo, à minha irmã e ao meu marido, só consegui porque vocês estiveram sempre comigo.
Ao Bê, o grande impulsionador disso tudo, que hoje, dia 04 de abril de 2019, me trouxe coragem de terminar esse texto e dizer para o mundo o quanto sou grata por Benjamin ter trazido a Laura. O bebê arco-íris que trouxe muitas cores pra nossa vida!

Um ano de resiliência, de vontade, de coragem e de fé. Perseveramos, conseguimos. Nosso muito obrigado a você que torceu pra esse dia chegar. 1 ano Laura!

Irene Bellotti

COMENTE:

6 Avaliação de A partida do Benjamin

Sandra disse : Guest Report a week ago

Minha amiga, você teve que ter uma força, fora do comum, mas você carrega um dos sentimentos mais nobres que é a gratidão, por isso foi merecedora de 2 filhos lindos. Muito nobre seu depoimento pq ajuda muitas mães em sofrimento. Que Deus abençoe esse quarteto fantástico aí.

Marilda disse : Guest Report 2 months ago

Irene, passei por uma gravidez assim também. No ano de 1995.Fiquei de repouso dos 3meses até os 8meses e meio.Meu pequeno Gabriel nasceu e dois dias depois foi ser uma linda estrelinha no céu. Não é fácil. A força pra suportar tudo veio de Deus.Tenho dois filhos e ele o nosso caçulinha com a diferença de 15 anos pra nossa filha do meio, veio ao mundo ,nos deu um lindo sorriso e momentos de alegria, e se foi.Do hospital fomos direto para o cemitério. Até hj não esqueço daquele lindo dia que o conheci.Hj já sou avó de 2 netos lindos e 1 linda neta. E tenho certeza que quem me segurou foi Deus. Minha gratidão a Deus sempre.Sou também daqui de BH.Um grande abraço.

RosanaR disse : Guest Report 2 months ago

A Irene ao esposo e tantos outros pais que seguiram e seguem esta estrada com força herculea... que teus desejos sejam repletos de Luz

Marinalva disse : Guest Report 3 months ago

Revivi minha dor nessas palavras, aconteceu comigo também em Maio de 2017 a saudade é eterna, mas hoje tenho o meu Ícaro que vai completar 4 mês meu mundo azul e o que perdi era o meu arco-íris Enzo, está ao lado de Deus 😔😔😔😭😭😭

Bia Ferreira disse : Guest Report 3 months ago

Que lição de fé! Parabéns Irene, vou compartilhar com uma amiga Nanda Issa, acho que vai ajusa-la muito.

Carla disse : Guest Report 3 months ago

Obrigada Irene por compartilhar sua história. Também tenho um bebê arco íris e senti a dor da perda de um bebê. Momento difícil sem dúvida para várias mulheres. Q Deus abençoe sua linda família!

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