01 de junho de 2015
Comentário( 1 )

4=1 – Por Irene Belotti

Impulsionada pela notícia de mais uma perda ontem e estou aqui, tentando amenizar a minha dor e, quem sabe, contribuir pra deixar menos dolorosos os corações de outras mães.

Arquivo Pessoal – Irene Belotti
Arquivo Pessoal – Irene Belotti

4=1 – Por Irene Belotti

Depois que o Bernardo nasceu – gestação tranquila, sem enjoos, com exceção da diabetes gestacional no finalzinho, mas que foi controlada com muita disciplina e tudo correu bem – pensamos que logo queríamos outro filho. Nunca tive dificuldade pra engravidar, graças a Deus. Tudo transcorria na mais perfeita ordem. Até que engravidamos. Sim, grávidos. Nessas horas, meu marido, companheiro e fiel amigo engravidou junto comigo. Assim como o B, o próximo filho teriam duas mães. Foi quando fizemos o primeiro ultra e já foi identificado bradicardia – frequência cardíaca lenta ou irregular.

Bastou. Fiquei apreensiva, não conseguia dormir e já muito ansiosa para o próximo ultra. E quem disse que consegui esperar? Dias depois, pagamos particular (claro que de última hora, não se consegue vaga através de plano de saúde). Foi quando ouvimos do médico, a ausência de batimento cardíaco. Começa aqui os dias intermináveis e incansáveis pensamentos e discussões se aguardaria para expulsar de forma natural ou partiria para a curetagem. Resolvi aguardar. Continuei trabalhando com aquela neura de que não poderia acontecer ali, no escritório. Seria estranho ter que entrar no banheiro de novo, um dia, e lembrar do que aconteceu. Chorar em casa é uma coisa, mas no trabalho… não queria.

Saímos pra passear com o B e quando comecei a sentir dores fortes, como cólica. Thiago, meu marido, perguntou se queria que voltássemos, mas diante da ansiedade do B em ver os bichos, numa feira, insisti e fui. Alguns minutos depois, a dor aumentou e senti um sangramento com volume nada normal, molhar minhas roupas. Era hora de voltar. Ainda me contorcendo no carro, Thiago pergunta se iríamos para o hospital ou para nossa casa. Hospital em último caso. Já cheguei tirando as roupas, e fui para o banheiro. Instinto puro. As cólicas eram menos espaçadas e as dores… Ahhh as dores… minhas mãos transpiravam. E o B correndo pelo corredor da casa brincando, sem saber o que se passava. Quando veio aquela dor insuportável, já achando que eu teria que ir para o hospital… Lá se foi meu filho. Senti a expulsão  como um nascimento. A vontade em olhar foi grande, mas eu não poderia fazer aquilo. A imagem não sairia da minha cabeça e seria pior. Thiago deu descarga e me acabei em lágrimas. Ali, naquele momento, minha ficha caiu.

Passaram-se mais alguns meses eu estava grávida novamente. A expectativa misturada ao receio de mais uma perda era evidente. Mas eu pensava: perdi um, agora vai dar certo. E no primeiro ultra estava lá aquele barulhinho que nunca sai da minha cabeça. O coração batendo forte e a todo vapor. Que sensação de alívio, meu Deus! Saímos da clínica muito felizes e espalhamos a notícia. Depois de alguns dias, veio um pequeno sangramento, o qual já era familiar. Na gravidez do Bernardo também o tive. Pouco, dentro da normalidade. Então até aí, me restava uma esperança de que era só mais uma reação chata do organismo. Essa seria a desculpa para a minha consciência, se eu não fosse teimosa.

Pagamos mais um ultra de urgência, claro. Não se consegue vaga pra ontem através de plano de saúde. Foi então que no misto de ansiedade e muito medo, a resposta veio. Lembro-me bem, B estava no colo do Thiago chorando, pois achava que o médico faria algum mal a mim, já que havia pedido pra eu me deitar naquela maca. Veio a notícia: novamente os batimentos estavam abaixo na normalidade. Fiquei destruída. Foi quando começou a saga em outras clínicas para reforçar – ou na minha mente para desmentir o que nós tínhamos acabado de ouvir. Pagamos mais um… mais outro… e o coraçãozinho estava lá, batendo, mas muito fraco para o estágio que o bebê se apresentava. Foi a semana mais longa que vivi. Sempre na esperança de ouvir o coração mais forte. Até que fizemos o último ultra, com um médico estúpido e seco. Me irritei com ele, trocamos algumas farpas, mas a mais fragilizada era eu. Não iria levar aquilo adiante. Meu objetivo era outro. Tivemos ali a “certeza” de que a gravidez não evoluiria, mas o coração insistia em bater. E era isso que me movia. Eu pensava: ele quer viver. Mas ao mesmo tempo, eu precisava ser realista. Ter os pés no chão e não me iludir com o que eu queria e sim com o que era possível. As respostas dos médicos eram as mesmas. “Sua gravidez não vai pra frente”.

E agora? Aguardo o aborto espontâneo ou faço curetagem? Santo WhatsApp! Longas conversar com as amigas para tomar uma decisão tão minha. Cada uma tinha uma opinião. Minha mãe, sempre presente, mesmo de longe, dizia sempre para eu fazer o que meu coração mandasse. Minha sogra… outra mãe! Meus irmãos… e meu grande companheiro, ao meu lado pra TUDO, dizia me apoiar no que eu me sentisse mais à vontade a fazer.

Essa indecisão perdurou por alguns dias… Quem sabe? Vou aguardar, pode acontecer hoje e nada… Mas a situação de carregar um filho morto, desculpem a forma direta, mas era isso. Carregar um filho morto dentro de mim, não era uma situação normal. Até as opiniões dos médicos se alternavam. Cheguei a ouvir do profissional que fez um dos ultras que no meu lugar, ele faria a curetagem, pois como o bebê estava maiorzinho, seria muito difícil de acontecer o aborto espontâneo. Minha cabeça dava nó. Cada vez mais confusa e sem saber o caminho que seguiria.

Agendada a curetagem. Me preparei muito psicologicamente pra tomar essa decisão. Fui recepcionada por uma médica, indicação da minha obstetra. Já não houve empatia. Eu estava muito sensibilizada, com medo e com uma profunda tristeza. Nada solícita e muito direta, ela nos levou até uma sala e disse que não faria a curetagem, pois os documentos que apresentamos, não garantiam que o bebê estava sem vida. E que ela jamais poderia fazer esse procedimento não tendo a certeza da interrupção da gravidez. E ela estava coberta de razão. Mais uma esperança. Quem sabe? Naquele momento pensei: vou pirar. Quando consigo tomar uma decisão, tenho que voltar atrás. A dúvida bate à porta novamente, me transtornando. Saí do hospital muito abalada e com a cabeça vazia. Eu tentava pensar em alguma coisa, mas não conseguia. Thiago ficou sem chão. Sem saber como ajudar.

Logo depois, uns 2 dias,  fizemos outro ultra e foi quando constatou-se que não havia vida.

Comecei a sentir fortes dores. Senti que a minha casa, não seria a melhor opção dessa vez. Partimos para o Mater Dei. E lá começou todo o processo, depois de um desgaste com o plano de saúde, para dar início à curetagem. Um parênteses: por que esses profissionais são tão insensíveis? Passei por vários que trataram o meu problema como mais um, no momento que eu mais precisava do apoio. Frases diretas, sem muita explicação. Mas enfim. Fiquei internada e de 2 da tarde até quase meia noite, o remédio não fazia efeito. Aumentaram a dose intravenosa e nada. Diminuíram o espaço das dosagens e nada. Foi quando uma enfermeira, por pena de mim, me viu contorcendo em cima da cama e me levou às pressas para o bloco cirúrgico. Eu não conseguia mais falar de tanta dor. Não vi absolutamente nada. Só me lembro de muito sangue nas minhas costas. Ainda perguntei porque eu estava tão molhada. Foi o remédio que introduziram para estimular o útero e facilitar a curetagem. Sangue e mais sangue.

Abri os olhos e virei para o lado. Lá estava outra mãe, que havia acabado de fazer o mesmo procedimento. Ainda dormindo, pelo efeito da anestesia. Ouvi um choro de bebê. Chorei pensando que poderia ser o meu filho. Mas me recompus logo, sem me apegar a essas ilusões. Minha realidade era outra. Voltamos pra casa.

Nessa segunda gravidez, o parto estava previsto para o dia do meu aniversário. E foi justamente nesse dia, que descobri que estava grávida novamente. Eu e Thiago ficamos naquela de “esconder” para só espalhar a notícia depois de 3 meses. Mas como? Estávamos muito felizes para ficar com essa novidade tão poderosa só pra gente. E assim foi. Colocamos a boca no mundo. Tive um pequeno sangramento, que me deixou apreensiva, mas já estava próximo do primeiro ultra feito segunda, dia 15/09. B foi com a gente e já saiu super empolgado do carro, gritando pra todo mundo que iria ver o irmãozinho dele na televisão. Mais um desgaste com o plano de saúde e nos chamam na sala. Em meio ao entusiasmo do B, eu e Thiago ouvimos os batimentos, com aquela precisão, como no ultra do Bernardo. Trocamos um sorriso largo e lindo! B falando alto que estava vendo o irmãozinho. Eu e Thiago nas nuvens. Foi quando o médico nos interrompeu, com a notícia de que o bebê não estava desenvolvendo. Os batimentos que ouvimos era do bebê da mãe que foi atendida anteriormente e a imagem ainda estava na tela.

Que baque. Que banho de gelo. Que vontade de ir embora correndo. Ainda ouvimos do médico: “Agora é ver como vocês vão contar isso pra ele” (aprontando para o B). Comentário infeliz e desnecessário. Dali, não falei mais uma palavra. Fui me trocar e sai da sala em direção a uma outra sala de espera para aguardar a documentação. Chorei, chorei e chorei. B, como sempre carinhoso ao extremo, limpava minhas lágrimas… “não fica tiste mamãe, vou cuidar de você”. Meu marido, sem lugar, inconsolado.

Hoje, estou aqui, tentando externar um pouco pra aliviar a minha dor. Ainda sem saber se terei um aborto espontâneo ou se farei a curetagem. Mais uma vez foi feita a vontade de Deus e eu fui a ponte para que outra alma pudesse se libertar. Vejo-me como uma pessoa iluminada, que está contribuindo, de certa forma, para essas almas voarem mais alto. E como pessoa, eu, meu marido e meu filho estamos sim sendo seres humanos mais experientes, mais fortes e mais contemplados. Sim, contemplados. Fomos escolhidos. E um dia, se Deus permitir, escreverei para vocês dando a notícia de que minha família cresceu. 4=1.

Sou forte, tenho fé e tenho minha família e amigos. Isso me basta!

Leia também:

http://padecendo.com.br/gabi-eternamente-por-fernanda-renno-rocha/

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1 Avaliação de 4=1 – Por Irene Belotti

Vivian disse : Guest Report 3 months ago

Irene, que relato libertador! Me vi por alguns instantes no meio do seu relato, apesar de nunca ter abortado mas passado bem proximo desse risco pelo lento batimento cardíaco da minha filha há 6 semanas de gestação! Meu médico iluminado por Deus conseguiu salvá-la. Logo de imediato fui medicada com aspirina e anti coagulante para ralear o sangue e aumentar esse fluxo sanguíneo..... uma gravidez considerada de risco porém muito bem assistida é muito tranquila! Deus sabe o que faz! Coloque nas mãos deles e seja acompanhada por um médico “do bem”! Se precisar de indicações, sinta-se a vontade! Logo logo teremos boas notícias! Vivian

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