21 de março de 2019
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Atirador de Santa Monica – eu estava lá

Em 7/6/2013 um jovem de 23 anos matou o pai e o irmão e colocou fogo na casa deles. Ao sair da casa ele rendeu uma senhora e a fez dirigir pela cidade e levá-lo ao Santa Monica College Campus.

Eu morava em Los Angeles e era consultora de uma rádio grande por lá. É uma filiada da NPR e eu trabalhava na implementação de um sistema de gestão que passava por todos os departamentos da empresa.  Estava grávida do meu filho que hoje tem 5 anos. Ainda estava no começo da gravidez, se não me engano por volta de 15 semanas. Morávamos eu e eu ex-marido (estudante de doutorado lá) na cidade há 3 anos. Tínhamos amigos, amávamos nosso “American Dream” que estava até então dando muito certo. Tínhamos acesso a tudo, eu um trabalho qualificado e valorizado, morávamos num lugar tranquilo e seguro.

Era uma sexta feira e eu estava na minha mesa me preparando para sair para o almoço com alguns colegas de trabalho e , no momento em que tudo começou, trocava emails com amigas brasileiras combinando o que faríamos naquela noite. Neste dia, 7/6/13, a cidade estava recebendo a visita do então presidente Obama. Quando isso acontecia, rotas eram planejadas e a população tinha esta informação disso antes, para poder planejar os trajetos do dia e evitar as áreas que estariam interditadas. Ele iria passar perto de Santa mônica (se não me falha a memória ele desceu no aeroporto da cidade) e haviam vários militares uniformizados e armados pela cidade. Observei isso no meu trajeto para o trabalho. 

Testemunho

Email enviado aos meus pais, irmãs e alguns amigos em 7/6/2013

Nunca
imaginei que escreveria um e-mail desses. Mas também hoje ao meio dia dia
imaginei que minha vida estava chegando ao fim. 

Hoje houve mais um tiroteio em local publico. Sempre acompanhei pela tv, hoje foi perto demais. A rádio em que trabalho fica localizada dentro do campus de uma faculdade. Meu prédio eh bem na entrada do campus. Hoje mais ou menos meio dia eu estava sentada na minha mesa quando ouvi dois barulhos, uns “estralos”, pequenas explosões. Olhei para os meus colegas e todos estavam se olhando. Uma colega disse que era barulho de escapamento de carro. Assim que ela terminou de falar mais, dois estralos. Eles foram acompanhados por um grupo de pessoas que abriu a porta do escritório lateral (que é uma porta de de emergência e dá acesso a outro escritório) correndo e gritando “ele esta armado”. Todo mundo desesperou, uns literalmente abriram a janela e pularam para o lado de fora (nós estamos no primeiro andar), mas a maioria (ou pelo menos o que eu entendi na hora) estava correndo para a porta que da acesso ao corredor que leva para fora do prédio. Pois bem, devo ter pensado por alguns minutos, só me lembro de observar as pessoas correndo e pensar que deveria sair também. Peguei minha bolsa e fui atras da multidão. Eu era praticamente a ultima da fila pra sair, quando já estava na porta, lembrei que meu celular estava na minha gaveta. Voltei pra pegar (pensei na hora em como faria para me comunicar com o Felipe, precisava do telefone). Peguei o celular, lembrei do Ipad conectado na tomada, isso levou segundos. Quando fui sair da sala, já estava sozinha (pelo menos era o que parecia). Quando abri a porta q da acesso ao corredor, fui olhar para os dois lados para ver se estava tranquilo de sair. Ao olhar pra esquerda, não vi ninguém, ou seja, todos já haviam corrido para fora do prédio. Ao olhar para direita, eu vi um homem andando tranquilamente, armado, com uma arma longa na mão, todo vestido de preto e com um colete (que agora sei que era colete a prova de balas). Eu o vi e ele me viu. Ele olhou nos meus olhos, ele estava a uns 10 metros de mim. Ele continuou calmamente andando em minha direção. Devem ter sido segundos, que agora duram horas na minha cabeça.  Pois bem, meu reflexo foi puxar a porta (e estava com a mão na maçaneta ainda), voltar pra sala correndo e fechar a porta (a porta fica trancada de maneira que pra sair você não precisa de chave mas pra entrar sim).

Como já
disse, neste momento eu achava que estava sozinha no escritório. Eu corri pra
cozinha e resolvi me esconder num vão entre a geladeira e o maquinário do
servidor de internet. 

Me
encostei na parede e fiquei la só esperando o barulho da porta, pois tinha
certeza que por ter me visto ele iria tentar entrar pra me matar. Eu fiquei
encostada nesta parede por 42 minutos. 42 minutos esperando pra morrer, 42
minutos pensando no quanto era cedo, que eu queria ver o meu neném. Mas eu
tinha certeza de que iria morrer. Liguei para o Felipe, contei baixinho o que
estava acontecendo… me despedi.. trocamos algumas mensagens enquanto eu
esperava. Fiz xixi na roupa.. só esperava o barulho dele entrando atrás de mim.

De repente
alguém entrou na cozinha, falando baixinho, perguntando se tinha alguém la. Era
a Barbarah, uma colega de trabalho que estava escondida dentro de um dos
estúdios dentro do escritório, que é a prova de som.

O que
aconteceu foi que no começo de tudo um grupo conseguiu sair correndo pela
porta, outro pela janela e outro se escondeu no estúdio, mas eu não havia
percebido isso. Eles estavam ouvindo radio, e sabiam que o atirador já estava
em outro prédio, então ela foi a cozinha pegar água pras pessoas.

Ela me viu
e me chamou para ficar la com eles.

Ficamos
presos no estúdio por mais 1 hora e meia. Eu contei aos meus colegas o que
havia acontecido, que eu havia visto um homem armado, que ele tinha me visto,
contei tudo, aos prantos… e eles me acalmando… que não era o atirador que
eu tinha visto… que deveria ser alguém da polícia. Mas eu insistia, não havia
identificação na roupa dele…

Como o
Felipe se comunicou com a polícia, quando a SWAT chegou para evacuar nossos
escritório eles perguntaram quem estava grávida e me colocaram em primeiro
lugar na fila. 

Saímos
escoltados pela SWAT, era um grupo de uns 20 policias, armados ate os
dentes, que nos fez sair com as mãos pra cima e acompanha-los ate fora do
campus. Como nosso prédio fica bem na entrada, fomos os primeiros a serem
evacuados. Hoje o campus estava bem vazio, por ser Summer… poucas aulas e
serviços funcionando.

No
caminho, escoltada, bem na entrada do campus e próximo ao meu prédio, estava o
corpo do atirador. Ali, descoberto, com sangue na cabeça. 

O mesmo rosto que eu havia visto horas atras. 

Quando eu
olhei para ele, sabem o que eu fiz? eu disse em voz alta e em português:
Obrigada. Eu estava agradecendo por ele não ter me matado. Porque ele teve duas
oportunidades e não o fez. Ele poderia ter atirado em mim quando nos vimos ou
ter tentando entrar na sala. Mas ao invés disso ele saiu do prédio e atirou em
outras pessoas. Matou uma senhora que estava na porta do meu prédio.
Provavelmente a próxima pessoa que ele viu depois de mim.

Porque?

A imagem
dele andando no corredor calmamente não me sair da cabeça. O que eu senti no
tempo que fiquei escondida esperando ele entrar na sala também não. 

Hoje, é sem duvida, o pior dia da minha vida.

Mas
agradeço por poder escrever este email.

Amo vocês!

Atirador de Santa Monica

(Em 7/6/2013 um jovem de 23 anos matou o pai e o irmão e colocou fogo na casa deles. Ao sair da casa ele rendeu uma senhora e a fez dirigir pela cidade e levá-lo ao Santa Monica College Campus. No caminho, ele fez alguns tiros, ferindo uma moça que estava dentro de um ônibus. Ao chegar na esquina do campus desceu do carro e caminhou, armado com um fuzil AR 15 Semi-automático, por 1/2 quarteirão até entrar no estacionamento. Ele atirou em um carro que estava saindo e matou os 2 ocupantes, pai e filha. Estes foram os tiros que eu escutei no começo de tudo. Após matar os 2 ele caminhou por dentro do prédio 1 do campus – onde estava localizado meu escritório –  e ao sair do prédio atirou e matou uma senhora que estava juntando latinhas das lixeiras. Ele então entrou na biblioteca, onde alunos estavam escondidos. Lá, foi rendido e morto pela polícia. Pela presença do presidente na cidade o ocorrido foi confundido com ação terrorista, o que em pouco tempo foi esclarecido pela polícia.)

Os dias que
seguiram este acontecido foram muito difíceis. Ficamos alguns dias sem
trabalhar, mas eu não conseguia voltar ao campus. Tremia e chorava só de passar
na porta. Como estava grávida, consegui ser transferida para um escritório
remoto que ficava há poucos quilômetros. Porém, depois de uns 3 meses, minha
diretora insistiu que eu deveria voltar para o campus, pois era imprescindível
meu contato com todos os departamentos e as reuniões “ao vivo”
funcionavam mais do que as por Skype que eu estava fazendo. Começaríamos com
idas semanais. Da primeira vez que voltei, assim que entrei no estacionamento,
havia um carro de polícia parado na minha frente, com a sirene ligada. Pronto.
Travei, deixei o carro morrer. Um dos policias bateu no vidro me pedindo para
tirar o carro dali. Eu estava tendo um ataque de pânico. Não falava, só
chorava. Quando ele viu minha barriga (por volta de 7 meses) ele começou a
perguntar se eu estava tendo o bebê. Eu não consegui nem responder. Ele chamou
por socorro. Uns minutos se passaram, eu só conseguia dizer “eu estava
aqui, eu vi o moço com a arma”, e chegou uma ambulância e um carro do
corpo de bombeiros. eles foram me acalmando, me examinaram alí e me levaram pro
hospital. Passado o tempo eu melhorei, estava tudo bem com o neném, fui pra casa.

Posso dar
inúmeros exemplos de como o que eu passei me afetou. Por muito, muito tempo, eu
não podia ouvir fogos de artificio. Me travava toda e tinha uma sensação de que
ia morrer. Aquela mesma que senti quando me escondi na cozinha.

Até hoje não
posso ver pessoas armadas. Antes tinha a mesma reação que descrevi sobre os
fogos. Então, passar por uma blitz, por exemplo, era um martírio. Hoje
“só” me da vontade de chorar.

A reação mais
esquisita a tudo isso foi a seguinte: Passei 5 anos sem conseguir andar de
escada rolante. Era chegar na “beiradinha” que o corpo travava.
Percebi que era um momento que eu não tinha controle e me gerava este medo.
Hoje já consigo subir sem medo nenhum. Descer ainda é um problema.

A pergunta de “Por que ele não me matou” volta e meia me assombra. Hoje, quase 6 anos depois, menos. Mas na época, era motivo de muita angústia e insônia. Muitos diziam que era deus, que eu tinha de ter o meu filho… e eu sou ateia e sempre questionei por que Deus me pouparia a vida e não a vida das outras pessoas. Procurei ajuda de todas as formas… fui a centro espírita… e depois que tomei um “passe” me senti mais calma sobre esta questão me atormentava. 

Suzano

Desde 2013
muitas situações como essas voltaram, infelizmente, a acontecer. Minha reação é
sempre de me conectar ao sofrimento das vítimas e sobreviventes. Leio
tudo, vejo todos os vídeos… Tenho tentado melhorar nisso… e quando
aconteceu o ataque na escola em Suzano eu consegui não ler nada nem ver
nenhuma imagem. Durou pouco. Ontem vi todos os videos do fantástico do último
domingo sobre o tema e minha angustia voltou com força total.

E ver em
redes sociais pessoas e grupos justificando os ataques e dizendo que seriam
impedidos se houvesse segurança armada na escola…

É este mundo
que queremos? Queremos que nossos filhos pequenos cresçam achando que é normal
o porteiro da escola ter uma arma??

Armas são
feitas para matar! Não são feitas para salvar vidas… outro dia ouvi na CBN um
dado sobre mortes por armas de fogo nos EUA, onde apenas, se não me engano, 5%
das mortes por arma de fogo são causadas por indivíduos em legítima defesa. Nos
outros casos aquele que atirou, matou!

Me entristece
muito que a saída de um problema tão sério de saúde e segurança pública seja
para muitos a geração de mais violência…

**por último mas não menos importante, preciso dizer que tenho, sempre tive, extrema consciência do meu lugar de privilégio na vida. Milhões de pessoas vivem em situação de vulnerabilidade e são expostas diariamente à violência. E muitas não tem a possibilidade de lidar com traumas. A vida tem de seguir. 

Gabí Moraes

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28 de março de 2019
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Puerpério x Powerpério

Meu filhotinho nasceu no dia 24/01 e, desde então, fiquei doida para vir aqui compartilhar com vocês uma experiência. Mas logo, na sequência, houve a tragédia em Brumadinho e fiquei meio assim de escrever sobre o puerpério.

Faço questão de vir aqui neste grupo dizer essas coisas porque AQUI encontrei uma forma muito bonita e importante de buscar apoio, informação, quietude… Já pedi dicas, já dei opinião, já fiz anônimo, e em TODAS as vezes, e mesmo ao acompanhar outros posts, fui surpreendida positivamente com o acolhimento, a entrega, os laços que se formam ainda que não possamos conhecer cada uma do grupo pessoalmente.

Medo

Tive uma gravidez clinicamente tranquila. Mas, secretamente, bem ali, nas funduras do peito, sofri horrores, ia tudo mal. Pra começar, uma gravidez não planejada – mas muito desejada! Idade ‘avançada’ (42 anos). Um descontentamento sem fim com o marido, vontade de, às vezes, jogar ele pela janela do prédio. Desânimo no trabalho. Desesperança com a política. Desespero por conta da falta de grana. Uma solidão profunda. E o medo. Desde o início, um medo aterrorizante, medo de morrer. De deixar meu outro filhotinho sozinho. De deixar o filhote na barriga sozinho. Medo de não dar conta, de falhar, de sucumbir. Medo. Parado na garganta, crises e mais crises de choro, crises de ansiedade. Medo de como o primogênito iria reagir…

Consegui dividir isso com poucas pessoas, que acabaram me ajudando, mas, ainda assim, foi barra. Parecia que estava carregando o mundo nas costas. Pra completar, o obstetra me dá a bela notícia de que cobraria, pra fazer o parto, a bagatela de R$7.000,00. Putz, e o desespero?
Sabe aquela de frase “se estiver com medo, vai com medo mesmo?”. Até porque, não tinha outro jeito. Final da gravidez pesado, aquele calorão que fez em janeiro e eu em plena programação de férias com o filhote: clube, cinema, praça, museu esplanada do Mineirão… arrastando o barrigão pra lá e pra cá. Corta pro dia 24/01.

Eu já estava sentindo contrações há vários dias. Tampão saiu no dia anterior. Aquela angústia de “será que vai dar tudo certo?”. Tava no clube, a bolsa estourou. Respira fundo, fica calma, dá banho no filho, pega sacolada, liga pra marido, liga pra mãe… E segue pra maternidade. Pra fazer o parto com o plantonista. Depois de escutar todas as histórias de terror sobre partos com plantonistas (as pessoas fazem questão, né?), mas é o que tinha pra aquele dia. E aí, sabem o que aconteceu?

Coragem

Entrar na maternidade foi como entrar pela Porta da Esperança! Mudou tudo. Tava calma, estava tranquila, estava em paz. Tirando as contrações, que naquela altura já estavam pegando, o medo foi sumindo, e me bateu uma coragem.. me bateu a coragem. Coragem da mulher, da fêmea que carrega consigo a força da natureza, que traz a memória de todas que vieram antes, que traz a energia poderosa que é dar a luz, trazer vida ao mundo… Que força violenta! Que energia!

Tudo isso foi potencializado pela humanidade com que fui tratada, desde o momento em que cheguei naquele lugar. Todos que me atenderam fizeram questão de deixar claro que aquele momento era meu. Que eu podia fazer tudo no meu tempo, do jeito que eu quisesse, aquela hora era minha. A cereja do bolo foi o médico. Plantonista. Que me olhou nos olhos, que pegou na minha mão, que me disse que eu ia conseguir, que eu sabia fazer, que ele estava apenas pra ajudar, que me olhou como ser humano e me entendeu. Pelas mãos dele, carregadas de ternura, doçura e empatia, meu pequetito chegou. E, junto com ele, uma energia maravilhosa, um poder inexplicável.

Meu corpo, até hoje, sente os reflexos desse momento. Uma quentura diferente, estou me sentindo A Mulher Maravilha!

Puerpério

Essa experiência que eu divido agora com vocês tem a ver com uma coisa que todos nós buscamos, ainda que sem saber, todos os dias de nossas vidas: a humanização, a humanidade nas relações, o respeito ao outro e a nós mesmos. A gente fala de ‘parto humanizado’, e bem sabemos o que queremos ao usar esse termo. Mas esquecemos que o que nos falta, a nós, raça humana, é que tudo o mais seja humanizado. O atendimento na loja, na escola, na esquina, no call center, no trabalho, em casa. Pelo vendedor, a professora, a amiga, o padeiro, o guarda, o vizinho, o motorista, nosso companheiro… Isso faz a diferença em nossas vidas! É isso que faz o Amor, a Alegria e todos os outros sentimentos bons fluírem. Nosso mundo precisa disso, olha só: nem começamos o ano e já estamos arrasados com tantas notícias difíceis. Bora colocar então o Amor pra circular, pra amenizar essas feridas tristes. A gente, que é mãe, tem a capacidade pra mudar o mundo!

Lorena Mayorga

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