30 de novembro de 2017
Comentário( 0 )

Machismo nosso de cada dia

Um assunto que procuramos abordar sempre no nosso grupo é o machismo. Hoje a Gabriela traz uma reflexão sobre o machismo nosso de cada dia.

O machismo nosso de cada dia – quando o tiro sai pela culatra

Estava refletindo sobre conquistas femininas, e me deparei com um pensamento. Acredito que falta muito para nós, mulheres, conquistarmos, mas já avançamos bastante. E de certa forma, acho que os homens ficaram para trás em alguns aspectos dessa busca por liberdade e igualdade.

Minha filha pode usar azul (aliás, fala que é a sua cor favorita) mas os meninos não podem usar rosa, muito menos gostar da cor. Mulher pode cortar o cabelo curto mas muitos homens são criticados por terem cabelo comprido. Existem mulheres em cargos de diretora financeira, engenheiras, caminhoneiras, piloto de avião mas se um menino quiser fazer balé ou ser enfermeiro já é taxado. Sem falar nas brincadeiras… Minha filha brinca de dinossauro, de carrinho, de futebol. Se um menino quiser brincar de Barbie, de casinha, de varrer a casa, muitos já ficam ouriçados.

Vejam como exemplo a repercussão da campanha do OMO. Quando a simples proposição de que toda criança é LIVRE para brincar do que QUISER, causou uma comoção nacional acusando a marca de incentivar a ideologia de gêneros.

Estou errada?

Não que uma caminhoneira não vá ser julgada por alguns, mas não é uma coisa que gere a implicação automática caminhoneira/lésbica, ao contrário de um dançarino, por exemplo… E vemos que essas restrições são na grande maioria das vezes impostas pelos próprios homens, muitas vezes pais e avôs.

São eles, os homens, os maiores responsáveis por castrar a liberdade de escolha, de sentimentos e de experimentações, que resultarão em frustrações e no futuro na repetição desse comportamento, tornando os homens grandes vítimas do seu próprio machismo.

A simples experimentação de algo do universo dito feminino já acende todos os faróis de que a criança pode vir a se tornar homossexual por brincar com isso ou vestir aquilo. O que lhes foge é que a sexualidade não é determinada pelo comportamento e sim o comportamento é determinado pela sexualidade.

Gabriela Matta Machado

Leia também:

Menino nunca é abusado. Precisa ‘pegar geral’ – Cultura machista

COMENTE:

24 de novembro de 2017
Comentários( 2 )

Em terra de liso quem tem crespo é rei

Em terra de liso quem tem crespo é rei. Essa é a história da Natália Larsen que saiu do Brasil e hoje mora na Dinamarca. Padecendo pelo mundo.

Natália Larsen Padecendo pelo Mundo

Parece ironia, mas como em um país onde praticamente todos, se não todos têm sangue negro, sofrermos com um racismo enrustido, enraizado? Somos desde cedo educadas para pentear o cabelo, arrumar, abaixar, prender…

“vai sair com esse cabelo?”

“Arruma o cabelo dessa menina”

Dizia meu pai.

Minha mãe, desde que me entendo por gente, me levou nos melhores e mais variados salões especializados em alistamento. Eu nem sabia mais como meu cabelo natural era. Na escola particular que estudei em Belo Horizonte, só eu na minha sala tinha o cabelo afro. Sempre foi assim.

Já adulta conheci meu marido dinamarquês que me achava uma deusa. Quando acordávamos de manhã, eu com aquele cabelo que vocês imaginam, falava que eu estava linda. Quando contei pra ele que meu cabelo era crespo quando natural ele me pediu veementemente para parar de alisar. Na cabeça dele não fazia o menor sentido eu alisar o cabelo. Para ele quanto mais volume melhor. Em terra de liso quem tem crespo é rei.

Em terra de liso quem tem Crespo é rei

Transição capilar

Muitos anos se passaram, muitos anos de terapia e tudo veio à tona. Aos 24 anos cortei meu cabelo comprido, na cintura, curtinho para me livrar do liso. Precisava saber quem eu era. Queria engravidar. O medo de ter uma menina batia a minha porta:

Como eu poderia educar uma criança e ajuda-la a construir sua auto-estima, se a minha estava em frangalhos?

Joachim

Em 2010 veio o Joachim. Um bebe lindo. Lindo e perfeito. Lindo, perfeito e mais do que isso: Ele era loiro. Do cabelo branco. Era inacreditável. E o que eu vivi com um bebe tao branco e loiro foi a confirmação de tudo.

Eu era parada na rua, nos shoppings. As pessoas ficavam encantadas com ele, tão branquinho que chegava a ser rosa. Cabeludo e loiro! Os olhos dele são castanhos e lindos. E o que eu mais ouvia era:

Ai que lindo que ele é, que pena ele não ter puxado os olhos azuis do pai…

Em terra de liso quem tem Crespo é rei

Em terra de liso quem tem crespo é rei

Em 2011 vim morar na Dinamarca. Então o choque cultural e a experiência de ser tão diferente me trouxe muitas reflexões. Ao invés de me sentir inferior, por não ser alta magra, loira de cabelo liso e olhos azuis, eu percebi que eu era linda! E o meu filho que, “tadinho”, não tinha os olhos azuis também virou estrela por aqui. E sabe porque? Porque ele tinha os olhos escuros!

Sempre ouvi da minha mãe que eu não podia usar batom escuro, marrom, vermelho, porque já tinha os lábios mais escuros e ficava feio. Ela dizia:

Fica igual boca de cachorro.

Com raiva, em meio às brigas na minha adolescência ela também dizia:

Já não é bonita, tem que ser pelo menos educada.

Sei que ela não fazia isso por mal, o racismo e conceito de beleza estão enraizados em nós, não nos damos conta dele.

Ouvi também que roupa preta não fica bem em que é moreno ou negro.

Preto com preto não dá!

Não dá pra quem?! Aqui na Dinamarca preto é uniforme. País frio, um inverno que começa em outubro e vai até abril, o que a gente usa? Preto!

E eu, vou vestir o que? Eu visto o que eu quiser! Quando uso roupas, maquiagem, ou batom de qualquer cor, o que eu escuto é:

Mas tudo fica lindo em você, olha a cor dos seus olhos, da sua pele?! A gente aqui e tão pálido…vou ficar com mais cara de doente se usar uma cor assim. Você pode!

Brasil x Dinamarca

De jornalista passei a ser cabeleireira. Era um sonho antigo. Trabalho com as dinamarquesas lindas, altas, loiras, magras e de olhos azuis. E o que elas querem? Ter o cabelo crespo, volumoso e escuro! E não é só isso, elas querem também os meus lábios grossos e escuros!

Nosso ideal de beleza está onde o negro não está. Nada que nos remete ao negro/escravo é bonito. É sinônimo de pobreza. A escravidão ainda está enraizada na nossa cultura. Negro que é escravo, que é inferior, que é pobre. Quem quer ter qualquer semelhança que seja? Ninguém quer.

Não conheço a fundo a historia da Dinamarca. Mas sei que já tiveram escravos. Só que aqui preto e só uma cor diferente do branco. Cabelo crespo e simplesmente diferente do liso. Não existem associações inconscientes.

Se foi fácil lidar com todas essas coisas? Não. De jeito nenhum. E ainda não é. Nesse país, que me acolheu bem em todos os sentidos, tive a oportunidade de saber quem eu sou, do que eu gosto. Me sinto privilegiada por isso.

Escrevi para me ouvir. Para dar um tapinha  nas minhas costas do tipo: que evolução!

Mamães de menina: digam sempre as suas filhas como elas são lindas, como o cabelo delas é lindo, façam penteados volumosos, pensem mil vezes no tom ao dizer “vai arrumar esse cabelo” ou coisas do tipo….

E o principal e mais difícil: você mamãe é o referencial de beleza da sua filha. Não adianta dizer a ela que seu cachinhos são lindos, que não precisa abaixar o cabelo, se você não se ama como você é. Você é o espelho da sua filha. O que é lindo ou feio pra você, assim será pra ela também.

Natália Larsen

Leia também:

Racismo por Jéssica Rocha

COMENTE:

17 de novembro de 2017
Comentário( 0 )

Conscientização da Prematuridade

Me chamo Sandra. Sou mãe de um casal de gêmeos, Jorge e Helena. Nascidos às 25 semanas de gestação, ou seja 15 semanas antes do termo. Minha história com a prematuridade extrema, forjou a natureza e intensidade diversas das relações que desenvolvi com meus filhos.

Conscientização da Prematuridade por Sandra M. A. Nogueira

Hoje, 17 de novembro, dia mundial da conscientização da PREMATURIDADE. Este relato busca, através da minha história de vida, emitir um alerta para os diferentes atores sociais que podem, de alguma forma evitar os partos pré-termo.

No Brasil o que mais espanta não são somente os números, mas a falta de informação e de preparo dos profissionais da área da saúde que atuam na janela de espaço tempo que vai da concepção, passando pela gestação, parto, internação e vida pós-alta das famílias prematuras. Estes profissionais, nas suas mais diversas atuações, são limitados pela formação incipiente e pelo despreparo em lidar com as situações críticas pelas quais uma família prematura passa repetidamente no cotidiano pré e pós nascimento de prematuros.

Pérolas de sabedoria

O objetivo maior deste testemunho não é preencher as linhas com informações científicas. Apesar da natureza acadêmica da minha atuação profissional, nenhum texto científico pode ajudar a vencer a tormenta que se instala em uma família depois do nascimento de filhos prematuros. Seguem aqui os maiores tesouros, pérolas de sabedoria, de quem vive em uma família prematura com desfechos transescalares impostos por esta circunstância:

  1. Sim, você perdeu a inocência. O mundo, você e sua família nunca serão os mesmos. Use esta situação para ser melhor, sempre;
  2. Seja gentil com os outros. Mesmo naqueles dias em que você está sob a água… Empatia e respeito são a base dos relacionamentos. Não deixe de ser solidário e ter escuta compassiva. Ninguém tem culpa, nem mesmo você;
  3. Filhos são presença, agradeça profundamente por poder ouvir, tocar, cheirar…não há nada mais valioso;
  4. Aprenda que não interessa o que os outros acham necessário para a sua família. A sua maternidade não tem que ser exemplo para ninguém. Faça o que achar melhor para a sua família, sempre…mesmo que terapeutas e médicos tentem provar o contrário.

Sim, fui forjada a ferro e fogo pela prematuridade. Fui marcada no corpo e na alma por esta experiência e por isso desenvolvi com meus filhos uma relação baseada no amor incondicional e no comprometimento.

Helena

Com a Helena me comprometi a entender o ritmo e as necessidades de uma criança especial. A paralisia cerebral, a microcefalia, a disfagia, a epilepsia grave, os transtornos de comportamento e de processamento sensorial não a definem, ela não os possui…eles são uma parte ínfima desse ser humano admirável que tem na intensidade das vivências cotidianas a sua maior alegria, independente de quão pequenas para os outros estas vivências sejam.

Jorge

Com o Jorge me comprometi com a sua memória, mantê-la em nossa família para sempre. Dos dezenove dias vividos, dos cinco meses em mim, fica a resiliência de um pequeno ser que me ensinou que, maior que eu, era a o amor que me permitiu abrir mão de você meu filho.

Dia mundial da conscientização da Prematuridade

Por isso hoje, 17 de novembro, sinto que minha família está representada pela luta de muitos que querem mostrar que prematuridade é assunto sério, que tem que estar em pauta. Falta muito para que no Brasil este tópico seja tratado na sua amplitude e em todas as suas esferas, mas quem sabe relatos como os meus não chamam a atenção de outros e outros?

Essa sou eu, mãe de gêmeos prematuros sempre e para sempre.

 

Profª Drª. Sandra M. A. Nogueira

Coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo
Universidade Federal de Ouro Preto
Escola de Minas
DEARQ I Departamento de Arquitetura e Urbanismo
Campus Universitário
Morro do Cruzeiro
Ouro Preto I Minas Gerais I Brasil
 

Você conhece a tabela de imunizações para o prematuro? Clique na imagem abaixo:

Vírus Sincicial Respiratório

COMENTE: