18 de maio de 2016
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O parto me preparou para ser mãe

O parto me preparou para ser mãe – Carolina Lais de Assis

Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

Durante a gestação li centenas de relatos de parto. E apesar de ter absoluta certeza de que cada mulher vivencia este momento de maneira única, eles me ajudaram muito. Por isso, apesar de estar no meio desse turbilhão de emoções do puerpério, escrevo com muito carinho e uma espécie de saudade de tudo o que aconteceu. Espero que a minha experiência contribua de alguma forma para que outras mulheres tenham uma boa hora. O parto me preparou para ser mãe.

Acordei e como era costume nas últimas semanas de gestação sentia cólicas. Durante o café da manhã observei que as dores estavam vinham com frequência, mas não dei importância. Isso já tinha acontecido antes.  Na hora do almoço resolvi começar a marcar os horários em um papel. Mais uma vez, para o meu desânimo, elas vinham de 5 em 5, de 17 em 17, de 10 em 10 minutos.

Cansada de ser enganada pelos pródromos e decidida a ir à maternidade só quando fosse a hora certa, continuei o dia normalmente.

Por volta de 19hs mandei uma mensagem no celular para o pai da minha filha falando das cólicas. Durante a nossa conversa senti a primeira dor considerável. Uma pontada nas costas. Diferente. Naquele momento tive certeza de que estava em trabalho de parto.

Mantive-me calma. Mandei outra mensagem para o Jeferson. Desta vez pedindo para ele não demorasse a voltar para casa, porque a gente iria pra maternidade hoje.

Não se passaram 5 minutos e senti outra contração, mais forte. Tive que me apoiar na pia do banheiro para não cair. Molhei o rosto. Respirei fundo e decidi que ia esperar o Jeferson chegar no apartamento dos meus pais (que fica no andar de baixo).

Ao descer as escadas outra contração. Não consegui marcar o tempo no relógio, mas sabia que elas estavam evoluindo rapidamente. Andar durante as contrações era impossível. Era uma dor intensa, que começava, chegava ao auge e ia embora. Começava nas costas e ia irradiando por toda a minha bacia. Quando ela ia embora eu era eu de novo. Conseguia conversar e até rir.

Para aliviar as dores tomei um banho quente. O melhor banho da minha vida. Simplesmente não tinha vontade de desligar o chuveiro. Mas precisa ir para a maternidade e o meu pai já estava quase tendo um filho na porta.

Minha mãe e meus irmãos chegaram e a operação descer as escadas, pegar as bolsas e entrar no carro começou. A vontade de fazer força começou. Avisei em voz alta e eles riram (de nervoso, talvez?). Meu irmão queria me carregar, eu não quis. Fui escorada nele, caminhei até a garagem lentamente e parando sempre que sentia uma contração.

Foi combinado que pegaríamos o Jeferson no meio do caminho para ir à maternidade. Eu estava muito preocupada em ele não conseguir chegar a tempo, mas confesso que fiquei tão egoísta em determinado momento da viagem que lembro de ter pedido para ir sem ele caso ele não estivesse no local combinado.

Era impossível sentar no carro. A dor aumentava muito. Eu me debati. Chorei. Tentei sair pelo teto, pela janela, mordi o meu braço, mordi o braço do Jeferson. Para piorar a situação todos os semáforos pelo caminho estavam fechados. Toda a minha calma foi embora. O alívio que sentia entre uma contração e outra se transformou em angústia. Eu sabia que a dor voltaria logo e mais intensa. O desespero começou a tomar conta de mim, não pensava mais na minha filha, no parto humanizado, não queria mais nada. Estava cansada. Queria apenas não sentir mais dor. Ah, que falta me fez e que falta me faz uma doula…

Meu pai parou o carro bem próximo à entrada do hospital. Logo que chegamos despertamos a curiosidade de todo mundo. Mesmo sentindo que era o centro dos intenções não me importei em arrumar o cabelo ou fingir que estava tudo bem. Enquanto minha mãe correu para a recepção, o Jeferson arrumou uma cadeira de rodas para mim e o meu pai… uai! Onde o meu pai estava?

Enfim. O Jeferson jogou a cadeira escada abaixo. O que foi muito engraçado, mas eu não consegui rir na hora. Sentar na cadeira doeu e doeu muito mais chegar até a rampa pelo asfalto cheio de pedrinhas. Vi estrelas e implorei para o Jeferson parar. Disse que preferia ir correndo do que “naquilo”. Ele não me deu ouvidos e a gente finalmente entrou na maternidade.

Lotada. Passei na frente de todo mundo, o que deixou alguns acompanhantes revoltados. Quando a enfermeira fez o toque e disse que eu estava com dilatação total quase não acreditei.

O hospital em que estávamos, o Hospital Sofia Feldman, fica em Belo Horizonte e é referência em parto humanizado no Brasil. Mas, infelizmente,sempre passa por dificuldades financeiras. Apesar disso fui muito bem atendida e não me arrependo de tê-lo escolhido.

Não tinha maca para me levar para a sala de parto. Fui andando escorada no Jeferson e na enfermeira que ficou falando pelo caminho: “Vamos! Sua bebê não vai nascer aqui! ”

Nesse momento me lembrei o motivo da dor, da gente estar ali. Voltei a ficar ansiosa para ver a Lis. Fiquei emocionada. Sabia que ela estava perto de chegar. Só não sabia que ia demorar tão pouco tempo. Cerca de 30 minutos.

Enquanto caminhávamos pelo corredor a enfermeira perguntava a outros colegas onde tinha uma sala disponível. Me deitei em uma maca, mas não me senti confortável. A enfermeira sugeriu o banco e eu aceitei. O Jeferson apoiou as minhas costas e a minha decisão. Ele me disse coisas no ouvido durante todo o processo, eu não me lembro as palavras, mas sei que não teria conseguido sem ele lá. As enfermeiras também foram fundamentais. Apenas se agacharam a minha frente e esperaram pacientemente, enquanto me diziam palavras de incentivo.

Ali, com a Lis já coroada, pedi anestesia. Achei que não fosse aguentar. Fraquejei. A enfermeira me disse que ela já estava ali e que eu poderia sentir a sua cabeça. Eu fiz isso. Era verdade. Faltava pouco e eu fiz força. Muita força. Gritei. Sem medo, sem vergonha, porque nada além de trazer a minha filha ao mundo importava mais. E como em um passe de mágica a dor sumiu e a sala foi invadida por aquele cheiro de vida que é impossível de descrever.

Muitas pessoas questionam a minha escolha pelo parto natural. Realmente eu poderia ter optado por uma cesárea e evitado as dores do parto (e sofrido com a recuperação). Mas eu sabia que, entre outros motivos, precisava vivenciar esse rito de passagem. Eu não imaginava o quanto, mas tinha a consciência de que seria uma mudança intensa e permanente. Precisava sentir a Lis chegando aos poucos. Precisava estar acordada e ser protagonista no evento mais importante da minha vida. Necessitava reencontrar os meus instintos, que hoje também me guiam no cuidado com minha filha. E confiar que o meu corpo sabia o que fazer e quando fazer. O parto me preparou para ser mãe.

O parto me preparou para ser mãe
Arquivo pessoal

Hoje, um mês após o nosso nascimento, posso dizer que o parto foi ótimo prévia do que é a maternidade. A todo o momento eu preciso ter força, paciência, fé. Ser mãe é trabalhoso, dói, cansa. É um constante exercício de autocontrole e autoconfiança. Às vezes dá vontade de desistir e gritar para os céus: “Ei! Me desculpa, mas alguém deve ter cometido um erro por aí. Eu não posso fazer isso. ” Mas é só respirar fundo, limpar as lágrimas e olhar para o corpinho frágil, macio e quente nos meus braços.

Quando faço isso, mesmo que ela esteja chorando desesperadamente, eu me aqueço de confiança. Ela me dá força. Nesses momentos, eu acredito que por ela eu posso fazer qualquer coisa.

Lis escolheu nascer dia 19 de abril de 2016, às 23:12. Nesse mesmo dia eu morri com o fim do grito da última força para renascer muito mais mulher, muito mais forte, no choro da minha pequena flor.

O parto me preparou para ser mãe
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10 de maio de 2016
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Nascida para vencer – Bolha no pulmão

Já era mãe de dois meninos, João Ivo e Murilo, quando engravidamos mais uma vez. Nunca achei que teria uma menina. Mas Deus nos presenteou com uma princesa que passou por muita coisa, incluindo uma bolha no pulmão.

Minha gravidez corria muito bem como as duas outras, completaria seu tempo por volta de 15 de abril. Porém, na madrugada de 04 de janeiro de 2011, com 26 semanas de gestação, tive uma ruptura de bolsa. Como moramos no interior, e fazia o pré-natal em Juiz de Fora, fomos para o hospital, e deixamos nossos dois pequenos, com 4 anos e 1 ano e meio, em casa, com minha sogra.

Nascida para vencer

Ana Paula Campolina

Por sorte não entrei em trabalho de parto. Fiz um ultrassom que mostrou que ainda tinha líquido amniótico. Tomei a primeira injeção para fortalecer o pulmão do bebê e prepara-la para o parto. À noite tomei outra dose, e, na manhã seguinte, mais uma. Durante o dia, um pediatra amigo da família que faria a sala de parto, estava muito receoso e nos preparou para a possível perda do bebê. Conversou muito conosco, disse que seria tudo diferente dos outros dois partos, que o clima da sala de parto seria tenso, que não eu poderia vê-la, teriam que entubá-la imediatamente e puncionar a artéria umbilical para passar os medicamentos. À noite o parto foi feito, meu marido esteve comigo o tempo todo, e nossos meninos na nossa cidade! Helena nasceu, com 875 gramas, consegui escutar um barulhinho que ela fez ao nascer, vi seu rostinho de perfil enquanto era entubada!

Passada a anestesia, fui para o quarto, sabia que a enfermeira não ia trazer nosso bebezinho para mamar. A madrugada foi longa, eu e meu marido aguardando ansiosos pela primeira visita na UTI. Na manhã seguinte lá estava eu na UTI. A primeira sensação que tive foi uma mistura de amor, pena, vontade de pegá-la no colo, de sair correndo dali. Nossa princesa era muito diferente do bebezinho dos nossos sonhos: seu corpinho eram ossinhos, órgãos e uma pele, quase transparente, vermelha, enrugada e muito fina. Sua cabecinha e seu tronco quase todo cobertos por aparelhos. Tão pequena, tão magrinha! Era a nossa princesa!

Começou a batalha

Infectada no primeiro dia, perdeu mais peso. Chegou a pesar 735 gramas. Ficou entubada por 15 dias tomando apenas nutrição venosa. Quando começou a tomar leite materno pela sonda, 1 ml de 8 em 8 horas, foi uma felicidade! Eu ordenhando quase meio litro de leite, e ela tomando 3 mililitros por dia! Quando aumentaram o leite, já estava tomando doses a cada 3 horas, nos informaram que ela estava com outra infecção. Uma Enterocolite. Não evacuava, a barriga estava muito inchada.

Radiografaram e viram as fezes paradas. Suspenderam meu leite e começaram a dar uma fórmula, procederam vários cuidados. Ela estacionou o peso de um quilo por uns 20 dias, enquanto tratava a infecção. Os grandes sustos – infecções, transfusões, idas e vindas para o oxigênio, apneias – eram mesclados com grandes sucessos: todos os resultados das ultrassonografias transfontanela (da cabecinha) demonstravam integridade cerebral, nenhuma micro hemorragia aconteceu!

Os filhos

Era difícil conciliar meus filhos em outra cidade> Três vezes por semana ia dormir com eles, após a visita da noite. Retornava antes da visita das 10 da manhã. Por sorte a viagem é curta, e com 15 dias, eu já estava dirigindo! Não podia perder as visitas, nem deixar de ordenhar o leite que sabia que teria muito, pois tinha amamentado meus dois filhos! Mesmo a Helena não mamando, os médicos me deram a esperança da intolerância dela ser transitória, por causa da prematuridade.

Com uns dois meses de internação, tudo correndo mais tranquilamente, o chefe da UTI nos chama para falar que, nas imagens das radiografias da Enterocolite, era detectada sempre uma bolha no pulmão esquerdo da Helena, e que a tendência era ela ser reabsorvida com o crescimento dela.

Colo de mãe

No dia 12 de março pegamos nossa pequena no colo pela primeira vez. Sua pela já era macia e rosinha, a penugem nas suas costas sumido, as bochechinhas estavam começando a ter gordurinhas. Foi muito emocionante! Quando completou 1,8 quilos os médicos pediram para que eu tentasse amamentar. Veríamos como ela reagiria. Amamentava de 3 em 3 horas. Das 6:00 da manhã às 21:00 e pela madrugada, ela tomava leite materno no copinho. Meu leite tinha diminuído muito, mas não tinha secado, e com a sucção dela, voltou com força total!

Alta da UTI

Ela não teve problemas gástricos e consegui, então, amamenta-la! Dia 31/03 ela teve alta da UTI, com 1,990 quilos, 86 dias de internação! Dormimos uma noite, eu e meu marido, com ela no hospital! Era muita felicidade! Olhávamos para ela o tempo todo, fotografávamos, uma festa em família! No dia seguinte fomos para a casa com nossa pequena nascida para vencer!

A emoção de sair com ela do hospital, posso sentir até hoje! Imaginar que, com quase três meses de vida, era a primeira vez que ela sentia o ventinho nas bochechas, a primeira vez que via o céu ensolarado, que não ouviria mais o barulho dos aparelhos, e que poderia dormir com as luzes apagadas! E melhor: a primeira vez que veria seus irmãos e sentiria o carinho deles! Estaríamos todos juntos, pela primeira vez!

Chegamos em casa! O irmão mais velho muito atencioso, cheio de perguntas, querendo saber de tudo, ajudar com a irmãzinha, e o menor, muito novinho, no primeiro choro da irmã, perguntou se ela ia voltar para o hospital! Estavam inseguros e foram meses para que se restabelecesse por completo o relacionamento dos meus filhos comigo..

As alegrias eram cada dia maiores: colinho dos irmãos, bons resultados nas consultas, fisioterapia para engatinhar!

Bolha no pulmão

Em agosto fomos fazer uma tomografia para ver como estava aquela bolha no pulmão. A bolha comprimia todo o pulmão esquerdo, o coração estava deslocado para o lado direito, esôfago e traqueia desviados, vários pontos escuros no pulmão direito. Fomos para Belo Horizonte. Nos consultamos com três equipes de Cirurgia Pediátrica. A cirurgia era certa! Não tinha outra alternativa!

O diagnóstico provável para aquela bolha no pulmão era Malformação Adenomatóide Cística. Deixamos a cirurgia marcada para a outra semana. Nesse intervalo, tivemos indicação de um médico em Porto Alegre, que era especializado em Cirurgia Pediátrica Pulmonar. Com insistência, conseguimos consulta para o dia seguinte e fomos na madrugada para Porto Alegre.

Tivemos muita segurança no médico que aventou uma hipótese diagnóstica diferente para a bolha no pulmão, Enfisema Lobar Congênito. Doença que se cura com a cirurgia. Na segunda-feira seguinte ela foi operada, e a cirurgia foi um sucesso! Foi removido o lobo superior do pulmão esquerdo, ela ficou três dias na UTI, mais uma semana internada.

Fazia fisioterapia pulmonar, o que permitiu que ela saísse do hospital com seu pulmão em pleno funcionamento. Durante esta semana pós-operatória, já tivemos que aumentar o volume da mamadeira que ela chegou tomando. Saímos do hospital direto para o aeroporto, e viemos para casa muito felizes! nascida para vencer! Ela estava curada!

Nascida para vencer

Hoje, com cinco anos, nossa princesa traz muita alegria a nossa casa! Que nossa vitória sirva de alento para quem vive momentos difíceis com seus filhos!  Momentos difíceis trouxeram fortalecimento para nossa família, foram muitos, muitos mesmo. Aprendemos a comemorar cada vitória com ela e com seus irmãos.

Nosso fortalecimento maior foi nossa fé!  E passamos para eles, diariamente, em nossas orações. Nada acontece por acaso! Mostramos para eles que Deus está conosco a cada dia, e que passamos o que temos para passar, não devemos ficar lamentando. Devemos tomar atitudes de luta e esperança.

Temos certeza que a força da oração de toda a família, e da nossa cidade, que se mobilizou, nos sustentou nos momentos que fraquejávamos, e precisávamos de conforto.

Deus abençoe cada família!

Ana Paula Campolina

 

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