18 de janeiro de 2016
Comentários( 39 )

Sou mãe do Theo mas estamos separados fisicamente há quase três anos

Fernando e eu realizamos o sonho de engravidar em 2012 e foi mesmo um sonho, a descoberta da gravidez, ouvir o coração batendo pela primeira vez, cada ultrassom, saber que era um menino, o carinho da família, presentes, mensagens. Tudo foi maravilhoso! Sou mãe do Theo.

Sou mãe do Theo
por Daniela Andrade Schneider

Fernando e eu realizamos o sonho de engravidar em 2012 e foi mesmo um sonho, a descoberta da gravidez, ouvir o coração batendo pela primeira vez, cada ultrassom, saber que era um menino, o carinho da família, presentes, mensagens. Tudo foi maravilhoso!

Nossa história poderia ser contada em um livro, mas registrei tudo em um diário. Seria capaz de falá-la mil vezes, e acho que foi quase isso em sessões de terapia, no colo da minha mãe e para amigos queridos. Poderia ser um filme, e contei no documentário “O Segundo Sol”. O que não poderia imaginar é que o desfecho do que planejamos para a nossa história foi o oposto de tudo o que desejamos. Não esperava que na virada para o sexto mês, o que era a expectativa por uma nova vida, pelo exercício do maior amor do mundo, se transformaria numa perda.

Eu desejei, por muito tempo, ser mãe.

E quando a gravidez chegou, me sentia pronta física e emocionalmente! Aos 35 anos, me sentia plena e verdadeiramente feliz! Grávida, junto com um marido maravilhoso, me tornaria mãe. Meus pais, avós. Meus irmãos, tios… e assim por diante. Só cabia felicidade em meu coração! Eu estava realizando meu sonho.

Tive uma gravidez de muito sono e nada de enjoo! Trabalhava, fazia pilates, Yoga, cuidava da alimentação, da saúde, tudo para ter uma gestação tranquila e um parto natural, como sempre sonhei!

Enquanto fazia as lembrancinhas, definia os últimos detalhes da decoração do quarto, enxoval quase pronto! Me sentia grata a tudo que estava vivendo!

Sou mãe do Theo
arquivo pessoal

Alteração na placenta

Fomos para o ultrassom morfológico e lá veio a primeira notícia:

Seu bebê está bem, mas há uma alteração em sua placenta!

A palavra ‘alteração” fez meu coração disparar e um esforço enorme para manter a calma! Corremos para o consultório e meu médico me examinou. Mediu a pressão, pediu repouso e um retorno no dia seguinte bem cedinho. Sem coragem de questionar, fui para casa. Minha intuição já anunciava que a vida viraria do avesso. Não consegui dormir, mas tentei me distrair, desejei bom parto para uma amiga, fiz minhas preces e conversei muito com o Theo. Lembro de dizer bem assim: “Eu sou sua mãe e farei qualquer coisa por você! Estamos juntos sempre”!

Internação

Do consultório, direto para uma internação no Vila da Serra. Dr. Emerson Godoy foi de extrema generosidade e atenção ao me transferir para a equipe do Dr. Frederico Peret. De forma objetiva e sensível, esclareceu-nos sobre o diagnóstico de pré eclampsia e da gravidez de alto risco, dizendo que receberíamos os melhores cuidados possíveis pela equipe médica que estava nos transferindo!

As primeiras horas, ainda no P.A, foram um pesadelo que parecia interminável. Tive uma dor de cabeça que beirou o insuportável e hoje entendo que essa dor foi proteção divina, pois eu não conseguia processar as notícias dadas por uma médica de forma tão fria:

“Vamos interromper sua gravidez! Entre a vida da mãe e do bebê vamos tentar te salvar e não é uma escolha sua”

Uma outra média, que fez o ultrassom, já foi logo dizendo:

“Seu bebê está entre a cruz e a caldeirinha, se nascer, morre, e se ficar, morre também, então é isso”

Eu, realmente, acredito que sobrevivi a esse tipo de violência de alguns profissionais graças ao apoio incondicional da minha família, em especial do meu marido e minha mãe, minhas amigas, e atendimento do Dr. Emerson, Dr. Frederico, Dr. Schneider, Dr. Francisco e algumas enfermeiras!

Depois vieram mais parentes, amigos e uma corrente de amor e boas energias se formou ao nosso redor! Recebíamos preces, orações, missas, novenas, cultos, de todas as religiões! Mensagens escritas, ligações, mensagens virtuais e isso nos dava força para viver um dia de cada vez! Cada hora de vida, dias, semanas eram comemoradas como uma enorme vitória! A pré eclampsia continuava a evoluir, mas a pressão se mantinha estável, tudo no limite, mas era o mínimo para nos mantermos vivos! Os médicos acreditavam que o Theo não fosse resistir, sugerindo que se fizesse um parto normal, pois, assim, a pré eclampsia seria interrompida e a vida da mãe não estaria mais em risco. Mas fomos em frente acreditando em um milagre! A ideia de um parto natimorto era muito difícil de aceitar!

Após vinte dias de internação veio uma notícia:

Se eu conseguisse chegar até 27 semanas poderiam tentar uma cesárea! Tomei corticoides para fortalecer os pulmões dele. Os médicos repetiam que ele estava em sofrimento fetal, oxigenava apenas cérebro, coração e pulmão. Mas seguimos cheios de esperança até 27 semanas e cinco dias!

Theo havia lutado bravamente! Bem novo, e ainda no ventre, já era conhecido como guerreiro! Um ultrassom indicou que ele havia chegado ao seu limite e que o parto seria realizado naquela hora! Ao saber disso, pedi, com todo o meu coração, que me levassem no lugar dele, se preciso. Meu maior desejo era o Fernando estar com ele, pois, independente do que estava por vir, eu o senti crescer e estivemos juntos por toda aquela gestação!

Na sala de parto houve tensão, mas eu me sentia amparada, muitos torciam por nós! O choro bem forte de um bebê numa sala ao lado me fez chorar!

Na verdade, era isso que havia planejado e desejado para mim e não ouvir de uma pediatra que bebês muito prematuros não choravam na ocasião do parto e que ele poderia viver minutos, segundos talvez!

Não me abalei! Me concentrei em agradecer pelo meu filho, pela oportunidade de estar ali, pela cesárea, que sempre critiquei, e depois para pedir pela vida dele, para que Deus guiasse os médicos, e se eu morresse, para que o Fernando ficasse bem para criar um filho sem mim.

O Theo nasceu!

E chorou muito! O choro dele lavou minha alma, me cobriu de amor e gratidão! Eu o vi muito rápido! Em segundos, o levaram para a UTI! Fernando me beijava, chorava e disse que o nariz era grande, e eu respondi que, então, não tinha meu nariz! Fiquei no bloco esperando a anestesia passar. Sentia frio e uma solidão enorme, mesmo com outras mães perto de mim e enfermeiras passando. Eu não queria falar, comecei a sentir dores e foi tudo meio confuso!

UTI Neonatal

Fernando passou o dia com o Theo na UTI neonatal! Uma enfermeira disse que, dificilmente, meu leite desceria, mas outra se esforçou até conseguir o colostro para ele.

No dia seguinte, consegui visitar meu amor. Dentro da incubadora havia um bebê pequeno e frágil, mas eu o via como um menino forte, lindo e muito guerreiro! Com todos os traços do pai, boca, nariz, orelhas, sobrancelha, cachinhos, menos a covinha no queixo, que era igual ao meu. Mãos e pés grandes, que eram dele mesmo!

Eu estava feliz de novo! Meu filho estar ali, diante dos meus olhos, era um verdadeiro milagre! Podíamos passar doze horas por dia com ele e, no terceiro dia, ele precisou de uma cirurgia cardíaca.

Minutos antes, lembro dele agarrar meus dedos ao ouvir minha voz. Sem dúvida foi um dos momentos mais sublimes da minha vida! Eu fiz uma prece para que Deus fizesse o que fosse melhor! As horas pareciam dias, mas foi um sucesso e confiamos plenamente no Dr. Marcelo! Fomos visitá-lo após a cirurgia. Chorei pela primeira vez dentro da UTI ao vê-lo sedado.

Como eu estava bem, recebi alta e dormi em casa.

A sensação de chegar em casa sem ele foi horrível! Fiquei arrasada!

Eu me ocupava em tirar o leite com uma bombinha e levar para ele. Escrever no diário e ler mensagens carinhosas!

As seis horas do dia seguinte, acordei assustada sentindo que ele havia partido! Ligaram do hospital nos pedindo para que fôssemos lá. A pior notícia de nossas vidas estava por chegar!

Fernando percebeu que os aparelhos estavam desligados e discretamente me virou para que eu não pudesse ver.

Ao receber a confirmação de que o Theo havia partido eu desmaiei e demorei para processar tudo aquilo!

Pedi para ver meu menininho e pude estar com ele no colo pela primeira vez! O corpinho frágil, não parecia mais com ele! Os olhos entreabertos eram cinza com um fundo bem azul! Mas eu o beijei, já sem calor! Agradeci pelos momentos mais lindos da minha vida e me despedi dizendo:

Até um dia meu amor, sempre te amarei!

Eu precisava me manter firme para tomar decisões difíceis!

Fui com o Fernando ao cartório e comecei a me dar conta da real situação quando percebi que não havia comprado o berço, mas estava escolhendo um pequeno caixão branco!

A despedida foi rápida! Uma hora de velório e o enterro junto ao avô paterno em uma linda manhã de domingo!

Muitas pessoas queridas nos abraçavam! Havia uma leveza em tudo, apesar da profunda tristeza!

Fernando leu um lindo poema! Minha amiga cantou cheia de delicadeza e eu coloquei meu primeiro presente pertinho dele, um cobertorzinho com um ursinho! Soubemos que ele havia sido batizado nos últimos minutos de vida e escolhemos três casais para serem os padrinhos!

Dez dias depois fizemos uma missa, mesmo não sendo católica foi importante receber tanto carinho num momento de profunda dor!

O luto é mesmo um deserto, e a sua travessia não tem sido fácil!

No início, fiquei em estado de choque! Cheguei até a visitar dois bebês, de uma amiga e de um primo do Fernando. Meu leite demorou a secar e isso dificultou muito! Era tão difícil de acreditar que nem chorava!

Em seguida veio a negação, aí comecei a fazer terapia e contava, em detalhes, centenas de vezes nossa história.

Depois da negação, veio uma raiva enorme! Costumava passar dias e noites chorando sem parar! Eu fui me dando conta de que aquela era minha história e do Fernando e que haviam muitos outros casais que perderam seus filhos queridos!

Com o fim da licença de quatro meses, não dei conta de continuar trabalhando. Não retornei ao meu emprego e segui por mais sete meses até retomar minha vida profissional.

Era estranho receber mensagens de pessoas que eu nem conhecia, enquanto parentes próximos ignoravam nossa dor e a existência do Theo. Recuperei a saúde física e com ajuda de tratamentos médicos, espirituais e psicológicos, fui recuperando a emocional.

Continuei escrevendo por quase dois anos no diário e, aos poucos, fui me fortalecendo com o amor que ficou. Mudamos de apartamento, fiz um jardim para ele, tatuagem, um poema e conheci pessoas maravilhosas!

Sem a experiência da perda de um filho eu seria outra pessoa!

Tornei-me forte para enfrentar outras dores, perdas que vieram depois, as doenças do meu pai… Passei a valorizar o que realmente importa! Sou mãe do Theo e ele transformou a minha e vidas de outras pessoas! Ainda há quem fale dele com amor e, o mais impressionante, é que nenhuma delas se encontrou com o Theo!

Comigo haviam mais oito grávidas, entre amigas e conhecidas. Por isso, ainda dói muito ver todas essas crianças que estão aí, crescendo com saúde! Eu me permito viver os altos e baixos da vida sem ele. As vezes não consigo ir ou ficar em uma festinha infantil, ou visitar um recém-nascido. Às vezes, sinto raiva da falta de sensibilidade de muitas pessoas! Prefiro evitá-las a enfrentar perguntas e comentários! Eu pensava muito em tudo o que gostaria de fazer junto com ele, se estivesse aqui, mas me dei conta de que fizemos muito em tão pouco tempo! Estivemos em sete países diferentes, ouvimos músicas maravilhosas, tivemos conversas em pensamento e ele sentiu o nosso amor!

Sou mãe do Theo
Arquivo pessoal

Sou mãe do Theo, minha homenagem para ele é viver, seguir em frente, agradecer mais e reclamar menos, realizar sonhos! Impossível esquecer tudo o que vivemos juntos! No meu coração só cabe amor e gratidão, além de saudades, claro! Sou muito feliz por ser mãe de um menino tão especial, por sentir tanto amor! Prefiro pensar que ele nunca foi desse mundo e que voou como um lindo passarinho azul! Espero que nossa história, sempre que contada, ajude alguém que também se separou fisicamente de um amor!

Veja o documentário “Segundo Sol”:

Leia também:

Gravidez e perda – por Bruna Andrade

COMENTE: