06 de julho de 2015
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Diabetes – da adolescência à vida adulta

O diabetes caiu sobre mim aos 14 anos e ainda hoje me lembro de rezar e pedir, a caminho do laboratório: “Por favor, meu Deus, que seja qualquer outra coisa”…

Diabetes da adolescência à vida adulta

Sheila Guimarães de Toledo

Quando vimos o resultado do exame de glicemia – minha Mãe, arrasada pela culpa, e eu, lá no fundo certa de que não tinha como ser diferente – ficamos as duas sem palavras.

O diagnóstico foi confirmado e a orientação médica foi bastante sucinta:

  • dieta,
  • exercícios,
  • insulina
  • e nada de açúcar.

Embora eu estivesse desidratada e com menos 10 kg, perdidos em pouco mais de um mês, deveria me considerar privilegiada, afinal, os sintomas não desencadearam nenhum quadro sério.

Segundo o médico, eu estava bem para seguir adiante com a minha “nova realidade”.

Tratamento

A minha família naturalmente se preocupou em iniciar logo o tratamento que, na verdade, é para sempre. Meus pais fizeram o que puderam dentro das suas condições emocionais e financeiras. Ao meu pai coube a difícil tarefa das injeções diárias. Comparadas com as de hoje, eram agulhas enormes que ele, coitado, enfiava com muito pouco jeito nos meus braços, em manobras que deixavam hematomas, por mais que ele se esforçasse em ser delicado.

Já a minha Mãe tratou logo de se aproximar da dona de uma das poucas lojas especializadas nos produtos “diet” então disponíveis no mercado (o light ainda não existia), aonde íamos quase todos os sábados. Nesse início, eu achava o máximo tomar coca diet e comer o tal waffer de chocolate importada (e horrível).

Injeções, restrições e adolescência

Não levou muito tempo até que eu assumisse as injeções e deixasse de lado as restrições alimentares. Era simplesmente impossível para uma adolescente de quinze anos assimilar todas as proibições sem se revoltar e seguir à risca as orientações médicas, ainda que sob a constante ameaça de sofrer, no futuro, as cruéis complicações da doença. Eu queria viver o presente, não admitia ser diferente e pouco me importava o que fosse acontecer no mês seguinte.

Assim eu fui caminhando.

Ia a festas, bebia, me alimentava mal, comia doces quase sempre, raramente media a glicose.

Ia ao endócrino e fazia exames só mesmo quando a minha Mãe praticamente me obrigava.

Depois que ela faleceu, eu com 22 anos, aí então que abandonei totalmente qualquer iniciativa de me cuidar.

Uma noite, saindo da faculdade de Direito, não me senti bem, estava bastante enjoada e, no caminho para casa, sozinha, resolvi parar no Semper. Encaminharam-me para um clínico geral que, para a minha surpresa, tinha sido meu professor de Medicina Legal.

Ele não me deu muita bola, pediu a uma enfermeira que medisse a minha glicose e, diante do resultado (mais de 200mg/dl, não me lembro ao certo), olhou bem nos meus olhos e disse:

“Nada que diabético faz presta”.

Fiquei indignada, mas não reagi. Simplesmente me levantei e fui embora. E depois, dirigindo para casa aos prantos, eu entendi que aquele comentário, por mais infeliz e ofensivo que fosse, por mais indelicado e discriminatório, enfim, aquelas palavras, mal ou bem, serviam para mim.

Mais de 10 anos se passaram desde o diagnóstico até que eu resolvesse encarar o diabetes.

Na verdade, só perto dos 30 que eu resolvi procurar por um médico que não se limitasse a desfiar as minhas limitações, coisa que sempre me irritou profundamente. Um médico que realmente me oferecesse opções de tratamento, que fosse jovem de espírito e de leveza, se possível. Encontrei.

Comecei então a usar o método de contagem de carboidratos e a mesclar o uso de diferentes insulinas, o que naturalmente me levou a medir a glicemia com mais frequência, nos diferentes horários do dia.

Poder me alimentar praticamente sem restrições e sem nenhuma culpa era um sonho que se transformava em realidade.

E assim passei a controlar a glicose com mais espontaneidade, com vontade de acertar e de forma mais tranquila, aceitando melhor a minha condição – para a qual, felizmente, tem (e muito) remédio e solução!

Fico extremamente sensibilizada sempre que leio depoimentos de mães cujos filhos foram diagnosticados precocemente com diabetes, porque a doença é mesmo difícil, abala toda a família e atinge a pessoa em um ponto essencial:

  • a capacidade de viver bem em grupo,
  • de partilhar um lanche,
  • de se sentar em uma mesa – na escola, no trabalho, num restaurante ou na casa da avó – sem que ninguém se preocupe ou repare no que estamos comendo ou deixando de comer.

Assombrações

O diabetes é sempre “assombrado” pelas possíveis e terríveis complicações:

  • cegueira,
  • falência renal,
  • doenças coronarianas,
  • impotência
  • etc.).

Por mais que a terapêutica tenha evoluído nessa área, noto que, sempre que digo que sou diabética, o primeiro olhar das pessoas é de piedade. Temos que lidar com a ignorância, claro, ninguém é obrigado a ser expert em assunto nenhum, mas se estou num dia ruim, é muito frustrante ouvir:

“Nossa, mas e a sua filha? Coitada, também vai ser diabética?”

Gestação

As gestações dos meus dois filhos foram, ao mesmo tempo, os momentos mais tensos e mais mágicos que eu já enfrentei. Vivi as minhas maiores preocupações e neuroses, mas também os momentos mais tocantes, a cada ultrassom que apontava estar tudo bem. Exames contínuos, medições de glicose a cada duas horas e pelo menos duas vezes em todas as madrugadas.

Estar alerta de que outra vida, a vida de um filho, podia ficar comprometida por um simples descuido no controle da glicemia foi algo que me atormentou a cada minuto, dia e noite, das duas vezes. Mas a alegria de ver nascer um filho saudável foi indescritível, e acredito que vou viver novamente essa emoção, se Deus quiser, daqui a três dias, com um sabor diferente, claro, já que são filhos diferentes.

Não sou exemplo de tratamento

Vacilo muito, exagero em refeições e na insulina, tenho milhões de hipoglicemias com a neurose de manter a glicose baixa. Mas hoje, quando olho para trás, não acho que deveria ter vivido um só dia de forma diferente. Caminhei e caminho na medida do que consigo, tropeçando e (que bom) errando muito.

Citações de filósofos são sempre pedantes, mas a frase de Ortega e Gasset, é uma síntese perfeita:

“Eu sou eu e as minhas circunstâncias.”

Eu tenho uma doença crônica e tenho que me virar para viver com ela. Ficar triste e passar por maus momentos faz muito mais sentido, para mim, do que fazer da “busca da felicidade” um ideal de vida.

Hoje me sinto privilegiada por ter o apoio incondicional de um marido que é o tão raro companheiro ideal, solidário, amigo, paciente.

Por ter amigas que sempre me puxaram a orelha, em especial as Padecentes Andrea Amaral e Roberta David, queridas de muitos e muitos anos.

E me sinto especialmente abençoada por ter gerado dois filhos, felicidade que nem ouso tentar descrever!

Para todas aquelas que passaram ou que passam, na família, por esse delicado e difícil diagnóstico, tudo o que me atrevo a dizer é que há, sim, circunstâncias muito piores. Que para o diabetes há tratamento e há conforto, até para os mais pessimistas como eu, ainda que se leve um bom tempo para assimilar o que a vida prepara pra cada um de nós.

Leia também:

Diabetes e exclusão escolar

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06 de julho de 2015
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Gravidez é linda – por Thania Montijo

Gravidez é linda! Todo mundo acha lindo quando vê uma mulher grávida. Não vou negar que estar grávida me faz sentir muito bem, mas comecei a analisar o outro lado da gravidez assim que o calor (quase insuportável) se instaurou em Brasília.

Gravidez é linda – por Thania Montijo

Descobri que além de grávida estou uma “gostosura”…

Começando pelo sutiã 48, carregando dois enormes melões e, pelo que tudo indica, leite não vai faltar.

Olhando mais pra baixo, a barriga saliente é quase uma melancia.

Tornozelo? Já nem lembrava mais que tinha. Perna pesada e canelas que se igualam às panturrilhas no final do dia.

Meus pés parecem pães franceses de tão inchados. E dentro do sapato parecem pães com manteiga de tanto que suam. Ai vocês pensam: por que não usa uma sandália baixa? Resposta: dedos gordinhos iguais biscoito de polvilho e o peito do pé igual a uma broa…

Os braços vivem escondidos. A última vez que os vi pareciam aquelas roscas de padaria sem assar: brancas, gordas e molengas…

Lembram-se daquele nariz arrebitado? Podem mudar a imagem para uma batata.

Gravidez é linda! Minhas mãos inchadas e quentes lembram aquele pastel de feira. Gordinho e quentinho…

É… Acho melhor parar por aqui, senão as que nunca engravidaram vão desistir e as que já passaram por isso vão falar que é exagero. Mentira de quem disser que a gravidez foi excelente, que não teve nada que atrapalhou. A imagem de mulher pelo menos jeitosinha, só depois do parto. E é ai que o bicho pega! A desculpa de que não dá pra malhar enquanto grávida não vale após o parto. Tem que ralar muito para deixar a “gostosura” pra trás e ficar com uma imagem pelo menos olhável ao espelho.

É isso aí mulherada… Engravidar é ótimo, mas como tudo na vida, tem um lado mais ou menos (sendo bem otimista!).

Aviso aos homens: quem falar que estou feia leva uma surra!

Tânia Moutijo 1

Thania Montijo

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