26 de março de 2015
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Três Tons de Azul – por Ana Maria Ziemer

No bar que eu sempre frequentava, surgiu um homem gatíssimo com quem conversei a noite inteira. Seu jeito diferente me chamou a atenção. Nunca mais nos separamos. Um ano depois, estávamos casados. E assim o autismo entrou em minha vida: pela porta da frente, e se multiplicou em três tons de zzul.

Três Tons de Azul

Ana Maria Ziemer

Por mais que parecesse impossível, nossa relação se tornou ótima, e passamos a trabalhar juntos. Meu marido tem uma incrível habilidade manual e trabalhava com pedras preciosas, mas após o casamento ele se encantou pela madeira, e transformou seu trabalho. Daí nasceu nossa marca de joias eco, AR Essencial, feitas com madeira de demolição.

Mateus

Então nasceu nosso primeiro filho homem: Mateus. Já tínhamos uma filha, que estava grandinha. Mateus foi uma criança extremamente desejada, que nasceu de parto normal, muito rápido e quase sem dor. Após a entrada na sala de parto, foram apenas 18 minutos para o nascimento. Mateus nasceu chorando, e permaneceu assim por meses a fio. Tudo o incomodava, e o choro era sempre irritado. Tinha alergia ao leite e vomitava muito. Na primeira consulta do pediatra, a bomba:
“Seu filho viverá em médicos, prepare-se!”
Saí da consulta chorando com Mateus em meus braços. Meu marido então, me disse algo que me marcou muito…
“Quem é esse médico, que olha para uma criança de um mês e já determina como será a vida dele? Me recuso a ouvi-lo !”
Concordamos que mudaríamos de médico. Aos trancos e barrancos fomos aprendendo a lidar com ele. Mateus vivia conosco, grudado, pra cima e pra baixo. Nas viagens de trabalho, nos passeios, no supermercado. Não era uma opção. Ele simplesmente não aceitava ninguém. E nosso filho cresceu… “bicho do mato”, não gostava de gente estranha e nem de sujeira.
Com o tempo, descobrimos que Mateus era bem mais parecido com o pai do que comigo. Mateus é além de um menino lindo e inteligente, é também autista. O segundo, dos meus três tons de azul. Ele não apresenta nenhuma dificuldade de aprendizado, o maior problema dele é social. Adora rotinas e regras. Quando ele completou 5 anos, eu engravidei novamente.

Máximo

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Foi, a gravidez mais planejada de todas. Tudo foi pensado, do antes, durante ao depois. Mas nada saiu conforme o planejado. No terceiro mês tive que parar de trabalhar. Comecei a ter hemorragias e no sexto mês, a mais grave. No dia 24 de dezembro, pouco antes da meia noite, no momento da ceia de natal, tive uma hemorragia maior. Fui socorrida imediatamente, o médico morava perto da minha casa e chegamos juntos ao hospital, em menos de 10 minutos. Eu havia perdido muito sangue e o socorro imediato foi vital.

A partir desse momento, meu terceiro filho ganhou um nome: Máximo. E Máximo nasceu na contramão do mundo.
Já que a cesariana era inevitável, o médico me disse:
“ Neném comigo, só nasce de segunda a sexta, de 8 as 18 horas.”
E marcamos o parto para uma segunda-feira , dia 10 de março. E o Máximo não quis nem saber… resolveu nascer no sábado mesmo, ao meio dia. Sim, porque não basta ser no fim de semana, tem que ser na hora do almoço também, pra dizer quem tá mandando! E assim, no dia 8 de março, Dia das Mulheres, ganhei meu maior presente.
Ele nasceu de uma cesariana de urgência, após uma pequena hemorragia. Nasceu com Apgar 9, mas bem roxinho. Era bem pequenininho, me parecia bem mais frágil que todos. Com muito custo, mamava 10 ml de Nan na chuquinha. Ao contrário de Mateus, Máximo não chorava. Ele ria.
Com um mês de vida, o levamos ao ortopedista para olhar um pezinho torto e saímos de lá com um pedido de tomografia da cabeça. O ortopedista disse que o pé torto era uma lesão cerebral, sequela da hemorragia quando estava grávida. Esse primeiro pedido teve resultado normal. E depois todos os exames, normais.

Diagnóstico

O chato do autismo é isso… a dificuldade em diagnosticar. Numa criança tão nova assim, impossível. E assim foi, tendo certeza que havia algo errado e sem saber o que fazer.
Com oito meses o Máximo não se sentava sem apoio e digo de coração, que aquilo foi um alívio. Só assim pra alguém acreditar que realmente ele tinha algo. Nesse meio tempo, ele arranjou seu primeiro amiguinho: o ventilador de teto! Era só ligar o ventilador que a diversão era garantida. Numa casa com dois autistas, a gente sabia muito bem o que aquilo queria dizer…
Os sintomas eram mais evidentes. Máximo preferia o ventilador ao pai e a mãe, tinha um atraso de desenvolvimento, ainda não engatinhava, gostava de barulhos estridentes e não tinha interesse nenhum em assistir TV. Desde cedo apresentou intolerância ao leite. Eram três tons de azul.

Alergias

Só depois de duas convulsões, descobrimos que ele (e o pai e o irmão), não processam a proteína do glúten e do leite. Se eles comem algo com esses alimentos, o que não é processado é jogado na corrente sanguínea e vai para o cérebro, causando um estrago enorme.
Com as crises do Máximo descobrimos a solução para as crises do pai e do irmão, que passavam mal, mas não tínhamos ideia do que fazia mal. Os choros sem fim de Mateus quando bebê vinham da alimentação errada, que causava dor e desconforto devido às alergias alimentares.
Hoje em dia o Máximo está com 6 anos, é não verbal, ainda não anda (tá quase!), estuda na Apae, faz múltiplas terapias num centro de reabilitação próximo de casa e adora sentar na varanda de casa pra ver o movimento da rua. Adora o caminhão de lixo. É uma festa quando ele pára e faz todo aquele barulho prensando o lixo.
Máximo se diverte…
Depois do Máximo nasceu a Barbara Bela, nossa pequena princesa, que veio para sacudir o mundo dos irmãos. E mesmo assim, com três tons de azul, minha família é igual as outras e minhas expectativas são as mesmas que das outras mães.
E o que desejo a eles é que tenham uma vida azul, três tons de azul… azul da cor do mar.
Que nesse dia Mundial de Conscientização do Autismo, o mundo possa se tornar azul por um dia, e sem preconceito pelo resto do ano.
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