31 de dezembro de 2014
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Uma bebê prematura – O Ano do Imponderável – Por Fabiana Fonseca

O ser humano precisa aprender a lidar com o imponderável. E o imponderável, neste 2014, bateu às minhas portas com tudo. E eu tive que aprender, a duras penas, a me conformar. E a replanejar. E pude perceber que, lidar com a nova realidade. A cuidar de uma bebê prematura.

Tive um filho em 2012, quase que “como manda o figurino”. Tirando o fato de que eu demorei 8 meses para engravidar, depois de ser duas vezes ser surpreendida com um falso positivo de uma tal “gravidez bioquímica” (que é acontece quando houve a fecundação, mas não houve a fixação do embrião no útero), minha gravidez do primeiro filho foi quase que perfeita!

Nascido às 38 semanas e 3 dias, sem nenhuma intercorrência, Arthur é um menino, lindo, forte e saudável. Decidimos que teríamos outro filho. Resolvemos então interromper os métodos contraceptivos em umas férias que tiramos em março/abril de 2014, pensando:

“vamos ter um filho no meio de 2015. Então, iniciamos agora e, daqui há uns 08 meses, estaremos grávidos de novo!”

Ah, os planos! Tão falíveis!

O Ano do Imponderável

Por Fabiana Fonseca

Com alguns dias de atraso menstrual logo depois das férias, tratei logo de fazer um exame de gravidez, exame mesmo, de laboratório, pra não ter erro… Negativo! Como previsto! Mas aí… Duas semanas, enjôos, azia e sono depois… Repito e exame e… Batata! Grávida.

Aí pensei: não planejei isso para agora, mas ok, esse pequenininho (a) será muito bem vindo! Outros enjoos, azia, sono, e translucência nucal.

É uma menina! Como queria o papai! Mas muito pequenina… E eu com uma incisura na artéria uterina. Isso já havia acontecido na gestação anterior.

“Tome um AAS infantil por dia e isso irá se resolver”.

Tomei. Resultado: ALERGIA!

Algumas picadas depois, muitos exames e um diagnóstico:

“Você tem uma tendência genética à trombofilia e precisa tomar uma injeção diária de anticoagulante”.

E olha que eu já tinha ouvido falar disso. E, na ocasião, achei que a mãe que havia se submetido a isso merecia uma cadeira especial no céu. Poxa… Que sofrimento!

Que nada! Uma picadinha diária (ou duas, no meu caso) não é nada pra quem quer uma gravidez tranquila e um filho saudável. Pensei: essa é a parte mais difícil da gravidez, mas eu vou passar por ela fácil. Ledo engano.

Às 30 semanas de gravidez, e já com a sensação de dever cumprido, me despedi do meu marido numa quarta-feira de manhã para que ele pudesse fazer uma sequência de curtas viagens de trabalho.

As primeiras depois de dois anos, desde que meu primeiro filho nasceu. Pensamos que seria melhor fazê-las logo, às 30 semanas, para que depois meu marido pudesse estar ao meu lado nos dias mais próximos ao parto.

A quarta-feira se seguiu muito bem, e também a quinta-feira. Neste dia, fiz meu filho dormir na minha cama e o carreguei nos braços até a cama dele. Acabei de ver um programa na TV e fui dormir por volta da meia noite.

Uma bebê prematura

Lembro-me ter olhado no relógio quando acordei de madrugada naquela noite, com fortes dores na barriga e recordando-me de já haver sentido uma dor parecida com aquela antes, no dia do parto do Arthur. Eram 01:35 horas. Fui ao banheiro com meu celular, querendo acreditar que aquilo eram apenas cólicas, e digitei no Google: “contrações de treinamento”. Só podia ser isso! Que trabalho de parto que nada… Isso não aconteceria comigo.

Retornei à minha cama e senti um líquido na calcinha. Hoje vejo que eu não queria acreditar que aquilo estava acontecendo. Levantei-me correndo e fui ao banheiro novamente, ainda com as luzes apagadas. Quando me sentei, vi escorrendo uma enorme quantidade de líquido. Aí sim, eu realizei que algo estava errado.

Percebi que minha bolsa havia se rompido

Tentei pensar em o que fazer naquela situação, já que estava sozinha em casa com meu filho de dois anos, com o marido a muitos quilômetros de distância.

Resolvi acender as luzes. Percebi, então, que o buraco era mais embaixo. Bem mais embaixo. Meu banheiro, com azulejos e louças brancas, havia se transformado numa poça vermelha de sangue. Minha primeira reação foi conferir se meu bebê não estava no vaso sanitário. Constatei que não. Tentando organizar as ideias, liguei para o meu obstetra e relatei ocorrido. Após o relato, fiz a única pergunta que me passava pela cabeça:

“Dr., eu perdi meu bebê?”

Ele me respondeu que não, que àquela altura da gestação não se perde um bebê assim, e recomendou que eu fosse imediatamente ao hospital. Ainda me lembro de ter feito uma pergunta estúpida sobre levar meu filho comigo, enquanto eu tentava resolver o que fazer.

Liguei para a minha amiga-irmã, que se morava no terceiro andar do meu prédio. Ela também “padece no paraíso” com um casal de gêmeos e, quando liguei às 02:15 da manhã, me atendeu prontamente e me disse que estava subindo imediatamente para o meu apartamento.

Eu deixei a porta aberta e entrei no banho, tentando ficar livre de pelo menos parte daquele sangue. Quando saí, minha amiga já estava no quarto, me perguntando como eu queria que ela ajudasse. Pedi que ficasse em casa com meu filho, que eu iria imediatamente ao hospital.

A vida da minha filha estava em risco.

Entrei no carro e me lembro de, no caminho, ainda ter ligado para o meu marido para avisar que ele precisava dar um jeito de vir embora. Alguma coisa tinha dado errado, eu ainda não sabia o que era, mas ele precisava vir.

Cheguei ao hospital às 02:35 horas da manhã e mais 20 minutos se seguiram até que minha filha nascesse. Nesse intervalo me lembro de ter ouvido um milhão de perguntas a respeito do meu acompanhante e de ter explicado, outras milhões de vezes, que meu marido estava viajando, que eu estava sozinha em casa com meu filho e que precisei ir só para o hospital.

Minha bebê havia entrado em sofrimento e estava com baixa frequência cardíaca. Observei a movimentação na sala de cirurgia e ainda pedi que ligassem para meu obstetra, o que negaram. “Não dá tempo”, me avisaram. E o pesadelo parecia que não tinha fim. Vi o anestesista me enfiar aquela agulha fria, senti a movimentação do corte na minha barriga e, então, fui avisada que minha filha tinha nascido. Foi aí que ouvi a pediatra:

“Façam a massagem cardíaca. Ela está parada. Reagiu. Vamos entubar”.

Arquivo pessoal: Fabiana Fonseca
Arquivo pessoal: Fabiana Fonseca

Agora eu estava aos prantos. Foi nesse momento que consegui chorar. Não tinha mais nada a ser feito. Só esperar. E ter fé. A pediatra, então, foi até mim. Meu marido neste momento estava comigo ao telefone e ouviu a explicação:

“Ela nasceu com parada cardíaca. Reagiu bem às manobras, mas é uma prematurinha muito pequena e precisou ser entubada. Precisamos ver como ela vai reagir, porque a situação dela é pior que a dos outros prematuros, em razão das circunstâncias que ela nasceu.”

A partir de então, todos os que me chamavam de louca por ter ido sozinha para o hospital, passaram a me chamar de corajosa. E o médico sentenciou:

Mais cinco minutos e ela não teria sobrevivido.

Não sou corajosa. Sou mãe. 

Ah… Esqueci de falar que o que tive foi um descolamento prematuro de placenta.

Eu não tinha planejado ter um parto com 30 semanas.

Não tinha planejado estar sozinha em casa com meu filho quando minha bolsa estourasse.

Não tinha planejado ter um descolamento prematuro de placenta.

Não tinha planejado estar sozinha naquela sala de cirurgia, tampouco ouvir todas aquelas coisas da pediatra que fez o primeiro atendimento à minha filha.

Não tinha planejado ter uma bebê prematura.

Tinha planejado um parto com, pelo menos, 38 semanas, perto do Natal.

Eu ia tirar fotos do meu barrigão com 32 semanas e postá-las nas redes sociais!

E, depois, ia ouvir o chorinho do meu bebê saindo da minha barriga, sendo acariciada pelo meu marido, com uma câmera a tiracolo.

Eu ia passar dois dias no hospital e ir embora com ela pra casa…

Ah, o imponderável! Como ele é cruel!

Minha pequena Alice nasceu com 1035 gramas e passou 51 dias na UTIP do Mater Dei e quase morreu no terceiro dia de vida.

Teve hemorragia pulmonar, gastro-intestinal e uma crise convulsiva que fez os médicos suspeitarem que ela teria uma hemorragia cerebral muito forte e que, se sobrevivesse, provavelmente teria sequelas em razão dessa hemorragia intracraniana.

Precisou fazer transfusão de sangue e me fez rezar e chorar copiosamente por uma semana.

Nenhum médico (isso eu só fui saber mais tarde), acreditava que ela daria conta de sair daquela situação. Todos (eu disse TODOS), me disseram depois que ela era um milagre.

Meu pequeno milagre

Uma delas, com anos de experiência em UTI neonatal, chegou a me dizer que nunca viu um neném sangrar tanto. Mas ela reagiu. Fez o exame da cabecinha e foi constatada uma hemorragia cerebral grau II que, na situação dela, era uma notícia maravilhosa. O corpo seria capaz de reabsorver sem sequelas.

Também foi constatado que uma válvula no coração permanecia aberta, enviando sangue em excesso para o pulmão. Esse problema é comum nos prematuros e, em razão deles, alguns precisam passar por cirurgias ainda nos primeiros dias de vida.

Três dias de medicamento e a válvula se fechou espontaneamente. No 13º dia de vida, ela mesmo se extubou e deu um susto nos médicos. Como o padrão respiratório era bom, ela permaneceu extubada e foi ligada a um aparelho mais brando de ventilação mecânica chamado CPPAP. No 23º dia, abandonou o CPPAP e passou a contar apenas com uma concentração maior de oxigênio dentro da incubadora.

Arquivo pessoal: Fabiana Fonseca
Arquivo pessoal: Fabiana Fonseca

Com 27 dias de vida foi “promovida” para a unidade intermediária, o que foi, para nós, uma imensa alegria. Até ali eu passava meus dias no hospital, mas ficava com ela no máximo duas horas por dia.

Visitas

As visitas eram curtas, sempre atrasavam, e os boletins médicos demoravam uma eternidade. Era uma penúria. Na unidade intermediária ela ganhou um bercinho, podia usar roupas e eu, finalmente, ganhei de volta meu papel de mãe.

Podia ficar com ela durante todo o dia, trocava fraldas, pegava no colo e acompanhava cada avanço. Agora ela tinha duas metas: atingir o peso de 1850 gramas e aprender a sugar tudo o que precisava na mamadeira.

Até ali ela recebia leite materno por uma sonda nasogástrica. E eu retirava o leite religiosamente, no mínimo cinco vezes por dia. Era a única coisa que eu podia fazer por ela. E eu ia tentar fazer. E ia conseguir.

Pra quem escapou da morte, ganhar 250 gramas e aprender a sugar não era uma meta, era um prazer! Com uma semana minha pequena guerreira mamava no meu seio. E sugava lindamente! Como eu sou orgulhosa dela.

Casa

Então, fomos pra casa. E eu estou aqui, reaprendendo a ser mãe. Ser mãe de uma bebê prematura, um neném tão frágil (e ao mesmo tempo tão forte), é um desafio novo pra mim.

Eu, que amo ver meus filhos no colo dos amigos e parentes, não posso deixa-la ser tocada por ninguém, por recomendação médica. E eu a defendo como posso, de todos os males.

Eu também não planejava nada daquilo que aconteceu a ela. Mas hoje ela esta aqui, nos meus braços, me fazendo a mãe mais orgulhosa e mais feliz desse mundo. Ele também planejou me dar uma lição de vida. 51 dias no hospital fazem qualquer um rever os conceitos.

O contato com a dor do outro, te faz viver a compaixão na carne. Eu vim pra casa com minha pequena, mas deixei meu coração com todas as mães e pais que ainda estão naquele hospital lutando pela vida de seus filhos. E os planos… Ah, os planos. Esses, eu faço e refaço quantas vezes a vida exigir.

No Natal pude, então, fazer finalmente uma foto em família: meu marido, eu, Arthur e a pequena Alice. Esse foi o único plano que, graças a Deus, não precisou ser refeito. E como eu sou grata a Deus por isso!

E hoje…

Alice, com 10 meses e 27 dias, está uma lindeza e muito esperta! É uma criança pequetita, em razão de sua condição de prematura, e ainda pesa menos de 6 kg.

Ainda mama no peito, graças à minha força de vontade, porque se dependesse dela ela teria largado aos 5 meses! Nessa época ela começou a não ganhar peso, recusar o seio materno e qualquer outro alimento que eu tentasse dar! Tentei de tudo, fruta, mingau, papinha pronta, suco, todos os tipos de leite de fórmula, tudo! E tudo que se punha na boca da pequena, ela cuspia de volta. No auge do meu desespero, após 3 meses sem engordar um grama sequer e com peso de recém-nascido aos 8 meses , procurei uma pessoa cuja filha também era prematura e, em razão de algumas dificuldades de sua condição, era acompanhada por diversos profissionais.

Carla Menezes

Ela, então, me deu a luz do fim do túnel. Indicou uma fonoaudióloga super competente, que eu acho que também é padecente, a Carla Menezes. A Carla, então, me disse que a Alice, por causa de tudo que passou no hospital, tinha uma dificuldade sensorial.

Nas palavras dela, os canaizinhos sensoriais da Alice estavam fechados, já que tudo que ela tinha passado até ali, a entubação, as várias manipulações para colocar a sonda, tudo, não tinha sido agradável. Ela então me orientou sobre como estimula-lá e, milagrosamente, Alice passou a comer normalmente com 24 horas de estímulos.

A mente e o corpo humano tem tantos mistérios que é difícil imaginar que um acontecimento ocorrido com um bebê tão novinho possa ter tantos reflexos.

Etapa vencida

Alice agora come loucamente! E está falante (na língua dela) e tem um sorriso tão penetrante que vê-la sorrir chega a me encharcar a alma, de tanta felicidade! Voltou a mamar na mamãe com muito gosto e depois de tantas dificuldades, que incluíram amamentar uma bombinha por 2 meses, vencer a resistência da pequena que queria largar a amamentação, dentre outras coisas, meu leite ainda está aqui, firme e forte.

Então, se você, mamãe, gosta de amamentar e tem dúvidas se vale a pena insistir, meu recado é: não desista! Se não fosse meu leite quando a Alice recusou todos os alimentos, nem sei o que teria sido! Sei que ainda temos muitas etapas a vencer (que mãe não tem?), mas sabemos do poder de Deus e, depois de tudo, temos certeza plena de que ele nunca nos abandona!

Arquivo pessoal: Fabiana Fonseca
Arquivo pessoal: Fabiana Fonseca

Fabiana Fonseca

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05 de dezembro de 2014
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Parto em Moçambique – sendo mãe africana

Depois de oito anos de casada, pressão de todos os lados para ter um filho, um menino, “pressão” psicológica para ter um filho, já que em Moçambique somente os filhos homens vindos dos filhos homens são os considerados netos porque vão dar a continuidade ao nome da família e, até então, na família do meu marido esse herdeiro ainda não havia chegado. Eu me preparando para engravidar, ter um filho e fazer o parto em Moçambique.

Parto em Moçambique
por Cecília Carvalho

A descoberta

Tudo começou com uma viagem até a África do Sul em outubro, para comprar móveis para meu escritório. Depois de 45 dias veio o primeiro sintoma, saindo de casa, entrando no carro veio um enjoo daqueles. A desconfiança virou quase certeza. No dia seguinte a confirmação, a alegria, o choro de emoção e o primeiro choque cultural.

Não se conta a ninguém, ninguém mesmo, nem a família! Imagina minha agonia, querendo espalhar pra todo mundo! Tudo bem que nos primeiros meses ninguém gosta de dizer nada mesmo. Tem aquela coisa de esperar os três meses. Mas em Moçambique não se diz nada. As pessoas que notarem, se forem mais chegadas a você, podem comentar, mas evita-se. Os não tão chegados, nem comentam nada. Não se fala o tempo de gestação. Muito menos quanto tempo falta. Para a família no Brasil dei a notícia como se meu filhote estivesse escrevendo uma carta para os avós.

Os 9 meses

Foram nove meses muito tranquilos. Só engordei o peso do bebe. Minha barriga não cresceu muito. Quando a barriga começou a crescer meu problema era roupa. Normalmente há um código do que se pode e não se pode usar na gravidez. Tinha que usar só vestido bem largo porque aperta o bebe e ele não vira.

Acabava discutindo sempre com meu marido porque não queria vestir roupa de “saco”. Lógico que não ia vestir roupa apertada, mas também não queria usar uma coisa que não tinha nada a ver comigo. Fui comprar calças próprias e mostrei ao povo que não tinha problema.

Pré-natal 

O pré-natal correu às mil maravilhas. Eu estava doida pra saber qual era o sexo. Mas toda vez que ia fazer o ultrassom a criatura estava com as pernas bem fechadas. Só quando meu marido me acompanhou na consulta de sete meses ele resolveu mostrar “os documentos”. Era menino.

Imagina a alegria dos avos paternos quando souberam que, finalmente, teriam um herdeiro! Do outro lado: na minha casa somos quatro irmãs, meu pai não tinha um companheiro e na família dele também não tenho primos. O reizinho iria chegar!

Meus pais já tinham marcado a passagem deles para cinco dias antes da data prevista para o parto quando a bomba caiu. Minha médica saiu de ferias e, com trinta semanas, tive que me consultar com outro médico. No ultrassom ele descobriu que eu estava perdendo liquido amniótico! Paranoia total! Tive que ficar de repouso absoluto e tomar uns medicamentos. Quando minha médica voltou, poucas semanas depois, confirmou tudo e disse para anteciparmos o parto porque ela viria ao Brasil para um seminário em salvador e não poderia acompanhar meu parto e, com essa situação, ela não iria ficar tranquila. Tínhamos que esperar completar 36 semanas para fazer a indução do parto. Chorei de medo. Minha mãe correu pra agência pra remarcar a passagem e não tinha data disponível. Desespero total. Ia ter o bebe sem minha mãe!

As preliminares

Na reta final, depois do susto da antecipação do parto, conformada em ter meu filhote sem minha mãe por perto, estava bem tranquila. Mesmo sabendo que não teria anestesia no parto normal. Procedimento no hospital onde eu teria meu bebê.

O enxoval já estava completo e lindo. Minha mãe estava apaixonada por ter o primeiro neto e já tinha comprado tudo. Passei os nove meses vendo meu enxoval pelo Skype. Cada coisa que ela comprava me mostrava pelo computador. Como já tinha a data marcada, na semana que antecedia o parto fui arrumar o berço, banheira e cômoda que havia ganhado de uma amiga.

Foi quando me dei conta que existe vida após o parto! Minha mãe comprou todo o enxoval, mas ela só iria chegar 15 dias após o nascimento do meu filhote, já que não tinha conseguido remarcar a passagem! Como o filhotinho ia sair da maternidade sem roupa e sem manta. Como eu ia dar banho nele sem toalha e sabonete? Acorda Cecilia! Tive que correr pra loja pra comprar o básico pra pelo menos 15 dias. Imagina… Mães de primeira viajem… Mais uma vez as culturas se chocam… Não podia ficar muito tempo fora de casa, tinha que descansar e, mais uma vez, evitar encontrar com as pessoas.

O dia D

A noite foi longa… Eu era a ansiedade em pessoa. Às 7 da manhã, como combinado, liguei para minha obstetra.

_Bom dia Doutora, então como vamos fazer?
_Vamos fazer o que?
_Ué, você disse pra ligar pra combinarmos como seria feita a indução do meu parto.
_Ah tá! Verdade… Passa aqui no hospital, estou te esperando.

Pois é ela havia se esquecido… Eu e meu marido fomos até ao seu encontro, chegando lá ela disse que ele deveria comprar o comprimido X para que a indução pudesse ser feita e quando ele conseguisse, ligaria pra ela. Isso mesmo, nós teríamos que procurar a coisa que era bem difícil de achar.

Ela passou a receita, eu voltei para o escritório e ele foi à procura. Às 9 horas ele já havia conseguido e fomos ao encontro dela num outro hospital onde a indução foi feita na enfermaria. Havia outras mulheres começando o trabalho de parto. Fiquei de repouso em observação por 2 horas e, logo, alguns sintomas começaram a aparecer.

A obstetra pediu que eu fosse para o hospital onde teria o bebê, ela estaria lá à tarde. Dei entrada no hospital, me deram uma camisola pra trocar numa sala onde havia apenas uma cortininha, entreguei tudo que tinha para meu marido, e ele saiu do hospital carregando minhas coisas.

Pré-parto

Fui encaminhada pra sala pré-parto. No hospital não são permitidos acompanhantes. Só fiquei com meu celular. Minha mãe mandava mensagens a cada quinze minutos pra saber o que estava acontecendo. Meu marido, do lado de fora do hospital, também esperando notícias.

Cada vez que tinha que fazer o exame para escutar o coração do meu filhote tinha que ir andando pra outra sala. O equipamento era único, um trambolho de grande e bem arcaico. Daquela sala eu podia ver meu marido por uma janelinha. Vi várias mulheres entrando e saindo para a sala de parto normal que era bem ali ao lado de onde estávamos. Não havia porta, ouvíamos tudo que acontecia lá.

Em torno de dezesseis horas comecei a sentir dores mais fortes. Descobri que o tal exercício de respiração de cachorrinho funciona. Minha mãe ligava a cada meia hora. Toda vez que eu tinha uma contração mais forte com ela ouvindo, vinha uma oração junto e ela invocava minha avó, bisavó e todos os santos pra me proteger. Naquele momento decidi não mais falar com ela ao telefone, ela estava me deixando nervosa.

Em nenhum momento fiquei aflita ou insegura. Estava muito calma e sabia que aquilo não iria durar muito mais. Logo veria meu pacotinho. Às 17 horas 30 minutos minha GO chegou. Como minha bolsa não havia estourado resolveu fazê-lo. Eu aceitava tudo porque não tinha ideia se era certo ou errado. Só aceitava…

Parto em Moçambique

Às 18 horas as contrações aumentaram bastante. As dores eram bem fortes. Ela levou meu celular pro meu marido e disse que podia acontecer a qualquer momento. Havia somente outra mulher duas camas depois da minha que estava iniciando seu trabalho de parto. Nenhuma enfermeira ou médica estava na sala. Conseguia ouvir as vozes delas que vinham do final do corredor conversando e rindo… De repente tive uma sensação estranha e gritei:

Meu corpo quer fazer força!

Rapidamente vieram duas enfermeiras e minha GO. Me levantaram. Fomos pra sala ao lado. Chegou minha hora. Já estava conformada que não teria anestesia. Tive que juntar todas as minhas forças pra mágica acontecer. Já não tinha forças quando outra médica que estava ali por acaso subiu na minha barriga e começou a empurrar junto comigo.

Tive meu parto em Moçambique. Não demorou muito, meu pacote saiu as 19 horas e 45 minutos. Não veio o choro. Olhei para o lado e vi uma coisinha roxa. A médica e uma enfermeira sobre ele perguntava se deveria pegar a adrenalina. Eu toda mole. Sem forças nem pra entender o que estava acontecendo. Perguntei por que ele não chorava ela disse que estava tudo bem. Logo em seguida veio o choro. Alguns segundos de angústia o pesadelo passou… A enfermeira levou meu bebe. Eu voltei pra outra sala para me levarem para o quarto.

O bebê

Logo trouxeram meu filho, fui informada que ele estava bem, mas que deveria ir para a incubadora porque ainda estava meu roxinho e precisava se recuperar. Levaram-me para o quarto de cadeira de rodas e, no meio do caminho, encontrei meu marido e minha cunhada. Foi um encontro rápido, subi até o quarto e só os encontrei novamente lá. Mais tarde uma enfermeira entrou, acendeu a luz com a delicadeza de um elefante apanhando flores num jardim de cactos, meu deu uns comprimidos e me informou os horários que deveria subir pra pediatria para amamentar. Mais um choque, meu filho não ficaria comigo no quarto. Passei a noite sozinha, procedimento padrão do hospital. Na manhã seguinte o dia começava às 6 horas quando deveria subir pra amamentar…

02

O primeiro dia do resto da minha vida

Acordei às 5 horas, uma hora antes do horário que deveria subir pra amamentar, como não tinha nada pra fazer e fui para a pediatria. Chegando lá só dava pra ver uma sala cheia de incubadoras. Pela janela a enfermeira perguntou qual era meu nome pra poder identificar meu filho. Ela me disse que eu não iria poder amamentar porque ele ainda estava na incubadora e mostrou qual era.
De longe não dava pra ver muito bem, ele estava de costas pra mim, mas naquele momento achei aquela criança muito mais escura e com o cabelo bem diferente do que eu havia visto no dia anterior, mesmo que rapidamente, quando a médica veio me mostrá-lo e eu pude dizer oi e ele abriu os olhos pra me ver, já foi tempo suficiente para que eu guardasse todas as suas características.
Nem questionei, mas fiquei ali vendo as outras mães chegarem para amamentar seus filhos. Meu instinto dizia pra não descer… Nesse momento, minha médica ligou pra saber como estávamos e eu informei o acontecido, ela ficou uns segundos em silêncio e disse que viria ao meu encontro. Eu ficava olhando pra aquela criança que disseram ser o meu e ainda não acreditava que era ele, em 20 minutos ela chegou e entrou logo onde os bebês estavam.
Via a movimentação de pranchetas, um vai e vem danado e logo ela sai com meu filho nos braços pra que eu pudesse amamentar pela primeira vez meu pacotinho que ainda não tinha um nome escolhido. Ali tive certeza que era mesmo ele, mas não era aquele que haviam me apontado, era o MEU filho, de verdade. Minha médica disse que achou estranho quando relatei que ele ainda estava na incubadora, ele estava roxinho, mas já estava pegando cor e não justificava ainda estar lá até aquele momento.

A troca

Durante a noite, quando ele saiu da incubadora e colocaram outra criança, não trocaram o prontuário! A sorte é que as crianças recebem a pulseirinha com o nome da mãe quando saem da sala de parto no mesmo momento que colocam a da mãe e mostram o nome na etiqueta. Imagina o meu susto! Mas como eu estava bem passada ainda, não fiz escândalo e só queria amamentar e olhar pra aquele rostinho e cantar pra ele.
O dia foi longo, a cada 3 horas eu subia pra amamentar com outras mães. À tarde recebi visitas do meu marido, sogra e cunhadas, que trouxeram almoço, lanche e conversaram um pouco, mas ninguém podia ficar. Dormi o dia todo e trocava mensagens com minha mãe que estava aflita no Brasil e ficou chocada com o que havia acontecido.
No dia seguinte fui pra casa da minha cunhada, onde também meus pais ficariam hospedados, já que minha casa não tinha como recebê-los. Lá tinha a empregada que iria me dar um apoio durante o dia enquanto estivessem trabalhando. Meu marido não podia ficar comigo o tempo todo porque ele estava tomando conta do nosso escritório e tocando os projetos. Logo minha mãe chegaria e tudo estaria resolvido.

Capítulo VI: os dias seguintes e os rituais culturais

Alguns meses antes do parto, perguntei à minha sogra se ela sabia se havia cursos para mães de primeira viagem, ela não sabia dizer, mas acreditava que não existia. Então a solução foi a internet, como Dr. Google é uma mãe! Nos dias seguintes ficava mais tempo com a empregada, minha sogra não ia muito à casa da filha, passava lá pra ver como estávamos, mas não ficava.

Dias depois, viva! Vovó e Vovô chegaram! Fiquei mais tranquila, mas como já havia aprendido dar banho e trocar fralda pela internet, não tive grandes dificuldades. Foi tudo ótimo nos dias que se seguiram, mas como tudo que é bom, dura pouco… O momento mais difícil foi ver minha mãe se despedir do meu Ethan no aeroporto sem saber quando o veria novamente… Chorei rios de lágrimas… Naquele mesmo dia voltei pra minha casa e a vida continuou.

Meses depois, num almoço de família na casa dos meus sogros minha sogra comentou que, no início, não ficava muito tempo comigo porque achava que eu iria deixar pra ela fazer tudo e cuidar do meu filho já que eu tinha perguntado sobre o curso pra aprender a fazer as coisas que iria precisar e disse:

Hum, essa daqui, nem sabe fazer nada e vai deixar pra eu fazer tudo, mas depois eu vi que não, você até fazia tudo direitinho…

Engoli seco e nem comentei… fazer o que né… 

Aprendendo a ser uma mãe africana

A partir daí, iria aprender o que era ser uma mãe africana. Uma das primeiras coisas foi aprender a carregar meu filho na capulana, seria um verdadeiro pacotinho, e como aquilo era prático… Com ele ali dentro, eu podia amamentar, ir às compras, arrumar a casa e tudo com as mãos livres!

Depois disso passei por uma reunião explicando o que deveria ser feito com aquela criança que acabara de chegar.

Antepassados

A primeira coisa era apresentá-la aos seus antepassados para que eles a pudessem a proteger. Fomos para o quintal da casa dos meus sogros onde existia uma árvore grande com uma casinha de madeira construída na sua base. Ali, em língua local, meu sogro invocou seus antepassados e fez a cerimônia de apresentação. Pra mim, era um ritual simbólico, mas para eles era de fundamental importância para a saúde do meu filho, para que nada de mal o acontecesse, com aquela cerimônia ele estaria protegido de todo mal.

Curandeiro

Dias depois teríamos outro ritual, dessa vez num curandeiro (quase um pajé nos moldes que conhecemos no Brasil). Uma pequena fogueira foi acesa, o fogo apagado e ficou somente a brasa, eu teria que segura-lo nu, a céu aberto sob a lua, por cima daquela fumacinha até que ele fizesse xixi. Não lembro qual foi a explicação para esse ritual, mas também era muito importante fazê-lo.

Ervas

Depois disso, me foi entregue uma panelinha de barro cheia de ervas que eu deveria encher de água, ferver, e dar uma colherinha todos os dias para o meu filho. Diziam que esse líquido, que era amargo de dar dó, era para evitar ataques de epilepsia que diziam ser muito comum. Todas as crianças em todas as famílias tinham aquela panelinha em casa e deveriam tomar aquilo até os cinco anos.

Essa parte eu não dei continuidade, não achava aquilo necessário, minha empregada insistia em ferver aquela coisa todos os dias, mas eu não dava pra ele. As ervas secaram, eu deixei aquela panela no fundo do armário até ser completamente esquecida semanas depois.

Proteção

Tivemos que colocar um cordão de tecido bem soltinho quase chegando à barriga, em volta do pescoço do Ethan com um pingente preparado com não sei o que para que ele ficasse protegido de mal olhados que pudessem o atingir, assim como o cordão que ficou amarrado abaixo da minha barriga durante toda a gravidez e que foi cortado somente na véspera do parto pelo mesmo motivo e para que não sofresse nenhuma perda.

Imagino que muitas pessoas irão questionar porque aceitei fazer tudo aquilo com meu filho. Antes de tudo acontecer, meu sogro explicava o porquê de tudo e como iria acontecer. Apesar do ocorrido que relatei acima com minha sogra, eles sempre foram muito corretos comigo, me acolheram muito bem e se preocupavam com o que eu acharia daquilo tudo. Se eu não quisesse, iriam respeitar, mas ao mesmo tempo, eu achava que não teria problema seguir uma cultura que, para eles, era tão importante. Nunca nada disso fez mal ao meu filho e essa era a minha única preocupação.

20

As voltas que o mundo dá.

O final dessa história acontece no Brasil. Dois anos depois de tudo isso acontecer, voltei para a casa dos meus pais em Belo Horizonte. Somente eu e meu filho. Apesar da distância, meu pequeno Ronga (etnia do pai) sabe de onde veio, tem orgulho de ter nascido em Moçambique e fala sempre de lá, apesar de não se lembrar de nada, inventa histórias de quando era bebê e da convivência com o pai. Sabe o nome dos avós paternos e sempre falo sobre os primos e tias, apesar de não ter muito contato, por enquanto, continua sendo o único que irá perpetuar o nome da família. Ensinei a cantar o hino de lá e prometi que iria levá-lo para conhecer sua terra natal. Ainda não sabemos quando será essa viagem, mas espero ainda existir o padecendo para contar mais essa aventura.

Cecília Carvalho

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