21 de abril de 2014
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A história da Maria Luisa

A história da Maria Luisa – Por Maria de Lourdes Couto Rocha

história da Maria Luisa
Arquivo pessoal – Maria de Lourdes

Quando meu marido e eu nos casamos pensávamos em ter 3 filhos. A primeira Maria Cristina veio logo e algum tempo depois a segunda Ana Paula. Como eu era bancária e tinha horários rígidos de trabalho não era fácil trabalhar e cuidar de duas crianças pequenas. Assim fomos adiando o terceiro filho e Daniela chegou quase oito anos depois. Tínhamos então nossas três filhas lindas e saudáveis e pensávamos que a família estava completa quando me surpreendi grávida novamente. Naquela época estava me preparando para fazer vestibular, desejava ter um curso superior e aquela gravidez veio atrapalhar meus projetos. Não foi fácil aceitar mais um filho e mudar meus planos, mas, com o tempo, fui aceitando e amando aquela criança. A gravidez transcorreu tranquila com consultas e exames periódicos apesar de ainda não termos ultrassonografia eu tinha quase certeza que seria uma menina. O dia do nascimento se aproximava e as irmãs com 13, 10 e 3 anos aguardavam ansiosas a nova irmã. Como seria a minha quarta cesárea, o médico optou por adiantar por 15 dias o nascimento, para não correr nenhum risco. No hospital estava ansiosa por causa de um sonho que tivera, sonhei que minha filha nascera com um problema, não sabia o que, mas tinha um problema. Por causa dessa ansiedade pedi ao médico para dormir durante a cirurgia, acho que estava tentando me proteger do que pressentia. Minha filha nasceu com peso e estatura normais (como as irmãs), mas o médico suspeitou da síndrome de Down e falou para meu marido. Quando peguei minha Maria Luisa, notei ,imediatamente, que ela era diferente, como vira no sonho. Chorei muito mas não conseguia ver que aquelas diferenças eram traços da síndrome. O pediatra a principio não deu um diagnóstico e achava que ela estava com reflexos e desenvolvimento normal. Comecei a ler tudo para identificar os traços dela com a síndrome e quando ela estava com dois meses o médico confirmou minhas suspeitas, mas foi muito otimista e disse que ela poderia se desenvolver muito. Não entendia porque tivera uma filha deficiente porque eu era saudável e só tinha 36 anos. Apesar da síndrome minha filha não tinha sequelas mais graves como problemas de coração ou pulmão e assim aos seis meses ela começou com estimulação precoce numa clínica no Eldorado. Foi amamentada no peito até mais de um ano, o que foi ótimo para a musculatura da boca. Com um ano ela começou a fazer aulas de natação para bebês, um projeto da fisioterapeuta da clínica, onde a mãe entrava com a criança na piscina. Com um ano e sete meses começou a andar e aos dois anos e oito meses foi para escolinha, nessa época ela já não usava mais a fralda. Sempre procuramos dar muita estimulação a ela, levando-a a todos o lugares possíveis, também usou um medicamento espanhol, o Dromia, que segundo a bula atenuava os traços da síndrome. Ela teve todas as estimulações necessárias ao seu desenvolvimento, natação, balé, ioga e fonoaudiologia, mas o nosso maior desafio foi com a leitura. Sempre experimentando métodos diferentes.

Maria Luisa
Arquivo pessoal – Maria de Lourdes

E assim ela foi crescendo e ficando cada vez mais bonita e experta. Quando ela frequentava a escola Despertar, alguns alunos foram selecionados para fazer um teste para trabalhar no Mac Donald’s. Ela foi escolhida por ser esperta e comunicativa, o franqueado nos fez uma proposta de trabalho, apesar de  ficarmos temerosos  optamos  por aceitar esse desafio. Ela trabalhou nessa rede por 6 anos e era muito querida pelos colegas. Com o trabalho vieram as entrevistas na televisão e ela ficou muito conhecida. Em 2000 escrevi um livro para contar os desafios que enfrentamos para superar a síndrome de Down, numa época que os filhos eram escondidos da sociedade. Mostrei que o nascimento de Maria Luísa foi uma oportunidade de crescimento que toda família teve e aproveitou. Fiz a faculdade de Psicologia que desejava, as irmãs cresceram, formaram e se casaram.

Hoje Maria Luísa trabalha com a irmã Maria Cristina, auxiliando-a no consultório de odontologia. Tem também várias atividades, frequenta academia 5 vezes por semana onde faz natação (aprendeu os 4 estilos), musculação e spinning. Faz sessões de fono, estuda e com uma pedagoga. Tem namorado, gosta de sair, ir a cinema, teatro e viajar. Adora viajar de avião, já  viajamos para a Disney duas vezes e ela adorou. Essa vida ativa é necessária para manter o cérebro funcionando. Graças a Deus ela tem uma ótima saúde o que permite fazer todas essas atividades.

Acho que é também por causa dela que me mantenho ativa, após o falecimento do meu marido há quase 4 anos, tive que assumir atividades que eram dele. Minhas outras filhas são maravilhosas mas todas tem sua vida profissional e seus filhos e Maria Luísa é minha companheira de todas as horas. Se soubesse como ela seria hoje não precisava ter sofrido tanto quando ela nasceu. Deus é maravilhoso e sabe o que faz, nós que não temos a capacidade de entender o que Ele planeja para cada um.

Maria de Lourdes Couto Rocha (mãe de Maria Luísa de Sousa Rocha)

 

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